Chega-me às mãos um despacho curioso, um rumor vindo de um futuro que mal ouso conceber. Fala de coisas estranhas: uma estátua erguida a um mártir que, pasmem, não morreu. Mencionam um tal Charlie Kirk e algo chamado Hyperallergic. Nomes que nada me dizem, mas as ideias que carregam me perturbam. Falam de uma “pós-verdade”, como se a própria distinção entre o fato e a mentira pudesse ser abolida por artifício ou por arte. Eu sou um homem do concreto. Meus balões e meu mais-que-perfeito 14-bis não se submetem a opiniões, mas às leis da física. O ar que nos sustenta, o motor que nos impulsiona, a gravidade que nos desafia — são verdades inegociáveis. O voo é uma prova, não uma narrativa. Como pode o porvir dedicar-se a construir realidades sobre o embuste, a celebrar com bronze e pedra aquilo que jamais aconteceu? Este pensamento me assombra. Há poucas semanas, em Bagatelle, demonstrei que o homem pode conquistar os ares. Fi-lo com um propósito: o de unir os povos. Sonhei com o céu como um território livre, um oceano de ar onde não haveria fronteiras, apenas a comunhão da humanidade flutuando acima de suas disputas terrenas. De minha Cabangu natal a esta Paris que me acolhe, o firmamento é o mesmo. Mas se os homens do futuro perdem o apreço pela verdade no chão, que não farão nos céus? Meu invento, nascido para a união, pode tornar-se uma arma a serviço de suas ficções. Podem usá-lo para bombardear não apenas cidades, mas a própria realidade, impondo suas verdades fabricadas pela força. Não temo pelo meu nome ou por monumentos que venham a me erguer. Temo que a memória de meu sonho seja corrompida. Temo que o voo, esta conquista da matéria e do espírito, seja reduzido a uma ferramenta de poder numa era que, ao que parece, se orgulha de sua própria cegueira. Que se ergam estátuas a quem quer que seja, mas que o céu, ao menos o céu, permaneça um domínio da verdade.
Cultura · 17 de jul. de 2026
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