A Stockport do final dos anos 1970 era um lugar onde o sonho de assistir a um show de rock, custando um inacessível £1.50, parecia tão distante quanto uma viagem pela Transiberiana. É nesse cenário de escassez e desespero que Carol Morley ambienta "7 Miles Out", um filme que é, em essência, um mergulho terno e agridoce em suas próprias memórias de juventude. A obra, baseada em seu livro de 2015, evita a melancolia fácil para oferecer um retrato complexo e multifacetado da vida abaixo da linha da pobreza, onde a busca por identidade e escape se torna uma batalha diária.

O título do filme, "7 Miles Out", evoca a distância geográfica e social entre a cidade natal da diretora e Manchester, um abismo intransponível para muitos. É um lembrete constante da falta de mobilidade social e das aspirações sufocadas. A narrativa se desenrola a partir do abandono súbito do pai (interpretado com carisma por Aidan Gillen), deixando Ann Westbourne (Amelie Hughes) e seus irmãos em um estado de confusão e penúria ainda maior. A mãe, Bryn (Gemma Whelan), desmorona sob o peso da dor crônica, mergulhando em anos de dificuldades e encontrando consolo na queima de lembranças de uma vida passada.

Enquanto os irmãos de Ann buscam caminhos para escapar, rompendo laços com o passado sombrio, o filme foca na jornada de Ann. Através de suas interações com valentões, a formação de amizades significativas e a confrontação com os traumas da desintegração familiar, a personagem, mais tarde interpretada por Lucy Halliday, luta contra as desigualdades sexuais, sociais e econômicas que a prendem a um destino aparentemente selado. A música, em particular o som melancólico do post-punk local, surge como um dos poucos refúgios e um nivelador universal.

"7 Miles Out" não se limita a um evento singular, mas constrói sua narrativa através de uma tapeçaria de episódios, anedotas e memórias primais. Essa estrutura episódica permite que Morley crie uma tensão constante entre momentos de leveza e angústia, refletindo a natureza volátil da vida de seus personagens. A comunicação intensa, por vezes explosiva, entre mãe e filha, que pode começar como uma conversa sarcástica e escalar para gritos acusatórios antes de terminar em tristeza e aceitação, ilustra essa dinâmica. É essa forma de comunicação, por mais volátil que seja, que paradoxalmente impede Ann de sair de sua própria rotina.

O filme celebra o poder da arte como um modo de escape e salvação, pontuando a trilha sonora com artistas como Joy Division, The Fall, The Raincoats e Magazine. Essa escolha musical não apenas evoca o espírito de uma época, mas também sinaliza a possibilidade de mudança e um caminho viável para o futuro de Ann, que, em uma versão ficcionalizada de suas próprias experiências, liderou um trio pós-punk feminista. A direção de arte e o design de produção, esparsos, mas cuidadosos, elevam a representação desse período, imergindo o espectador na atmosfera da época.

"7 Miles Out" é um testemunho da complexidade da formação da identidade e da influência de um vasto leque de fatores – família, amigos, inimigos e até mesmo fantasmas do passado. O filme nos convida a refletir sobre como as circunstâncias moldam nossos caminhos e se, em meio à revolta doce e amarga da juventude, a música e a arte podem verdadeiramente oferecer uma rota de fuga duradoura. Qual o verdadeiro custo de se desvencilhar das próprias origens, e quais ecos do passado ressoam mais forte em nossas jornadas futuras?

Source · Little White Lies