A 99 está abrindo uma nova frente na acirrada guerra do delivery no Brasil. A companhia, controlada pela gigante chinesa Didi, anunciou a chegada do seu serviço 99Compras à capital paulista, com um investimento de R$ 100 milhões para a operação. A plataforma, que reúne desde supermercados e farmácias a pet shops, é o mais recente passo na ambição da 99 de se consolidar como um superapp no país.

O movimento, reportado pelo Money Times, posiciona a empresa em rota de colisão direta com o iFood, mas com uma tese fundamentalmente diferente. Em vez de disputar o mesmo consumidor de alta renda, a estratégia da 99Compras é destravar o consumo das classes C, D e E, um público que, segundo a empresa, ainda percebe o delivery como um serviço caro. A aposta é que sua base de 60 milhões de usuários do app de transporte pode ser a chave para popularizar as entregas do dia a dia.

A estratégia do superapp

O plano da 99 não é apenas lançar mais um aplicativo de entregas, mas sim construir um ecossistema integrado. A companhia aposta que a familiaridade e a escala de sua operação de mobilidade urbana podem ser convertidas em um novo hábito de consumo. Segundo Talita Poleto, diretora comercial da 99Compras, o objetivo é quebrar a percepção de que pedir compras por aplicativo é um luxo, oferecendo uma proposta de valor centrada na acessibilidade.

Os R$ 100 milhões aportados em São Paulo serão direcionados para estruturar a operação com cerca de 3 mil parceiros comerciais — incluindo grandes redes como Carrefour e Atacadão — e mais de 200 mil entregadores. O discurso é de construção de um modelo sustentável para as três pontas do negócio (consumidores, varejistas e entregadores), em um aceno que busca se diferenciar de modelos de crescimento a qualquer custo que já marcaram o setor.

Farmácias e o foco em São Paulo

Dentro da plataforma, a vertical de farmácias desponta como o motor de crescimento mais rápido. Em Goiânia, onde o serviço foi testado, a categoria já responde por 28% dos pedidos. A dinâmica é atraente: são itens de alta necessidade e a operação logística é mais simples que a de supermercados, resultando em entregas mais rápidas, na casa de 24 minutos. A 99 afirma estar investindo em equipes dedicadas e tecnologia, como a prescrição digital, para navegar a complexa regulação do setor.

Apesar dos planos de expansão nacional, a prioridade é consolidar a operação em São Paulo e sua região metropolitana. A estratégia é pragmática: garantir a excelência operacional e a previsibilidade na entrega antes de avançar para novas praças. A companhia não busca o crescimento pelo crescimento, mas sim a construção de uma base sólida no mercado mais competitivo do país, apostando que a previsibilidade é mais importante para o consumidor do que a velocidade extrema.

A batalha pelo delivery no Brasil, portanto, ganha um novo contorno. Enquanto o iFood consolidou sua dominância, a 99 abre uma frente de batalha assimétrica, mirando um público que até hoje esteve à margem do e-commerce de conveniência. A questão é se a força de um superapp é suficiente para transformar a sensibilidade a preço em um hábito de consumo digital duradouro.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times