O Estado-nação, uma invenção ocidental, está no cerne da instabilidade global. Vulnerável por natureza à influência do Ocidente, ele gera uma política de confronto perpétuo. A alternativa, segundo o diplomata e acadêmico português Bruno Maçães em um ensaio para a revista Noema, não está em um novo arranjo de poder, mas em um paradigma civilizacional distinto — especificamente, o indiano.

Maçães argumenta que a tradição filosófica da Índia, milenar e anterior ao próprio conceito de nação, oferece uma saída para a armadilha geopolítica. A tese central se apoia no conceito de Advaita, ou não-dualismo: a oposição entre o "eu" e o "outro" é uma ilusão pertencente a um baixo nível de consciência. Em um plano mais elevado, o eu se identifica com a realidade universal, minando a própria base do conflito.

A lógica do espelho quebrado

A ordem mundial moderna opera sob uma lógica dualista. Maçães, citando Carl Jung, descreve como o ego nacional projeta traços reprimidos sobre os outros, transformando adversários em repositórios de todo o mal. A política mundial se torna um palco para o confronto final entre o bem e o mal, onde os monstros que enfrentamos são, em última análise, criações nossas. A aniquilação mútua torna-se um horizonte inevitável.

A filosofia indiana, do imperador Ashoka a Mahatma Gandhi, refuta essa dualidade. O épico Mahabharata ensina que "Jiva" (a alma individual) é "Shiva" (a consciência suprema). Como explicou o diplomata indiano Shashi Tharoor, no hinduísmo, a alma tem um corpo, e não o contrário. Somos todos emanações de uma alma universal. Fazer o bem aos outros é, em essência, fazer o bem a si mesmo. Comparadas a essa visão, escreve Maçães, "as teorias morais ocidentais parecem quase grosseiras".

O paradoxo do poder

A prática, no entanto, revela uma profunda contradição. A mesma Índia, berço do Advaita, testou seu primeiro dispositivo nuclear em 1974, batizado ironicamente de "Buda Sorridente". Um segundo teste em 1998, a "Operação Shakti", desencadeou uma corrida armamentista com o Paquistão, que se tornou a única nação de maioria muçulmana com a bomba. A rivalidade dualista prevaleceu sobre a sabedoria ancestral.

Este é o paradoxo que assombra a transição para um paradigma "geo-civilizacional". Para que potências como China e Índia possam resgatar suas raízes e projetar um futuro à sua imagem, elas primeiro precisam se fortalecer dentro da ordem internacional existente — uma ordem definida por interesses nacionais e poder militar. Como aponta o historiador Wang Gungwu, quando o "poder da civilização" é confundido com o interesse nacional, "o mundo se torna um lugar perigoso".

A armadilha da geopolítica é que ela convida ao conflito dualista que a constitui. A saída proposta por Maçães exige um desapego do próprio poder que hoje define o status global. Como resumiu o historiador Arnold Toynbee sobre o futuro da civilização ocidental, a escolha será entre o "caminho indiano" ou a bomba. O que se perdeu há muito tempo pode levar muito tempo para retornar.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Noema Magazine