Para Stuart Feld, da galeria nova-iorquina Hirschl & Adler, o roubo acontecera no dia anterior. A memória da tela de Eastman Johnson, levada em 1978, permanecia intacta, uma ferida aberta por quase meio século. O que ele não esperava era que o tempo, enfim, a fecharia. Quase cinquenta anos depois, a obra The Young Mother está de volta, junto com outra pintura do artista, Mary and Her Lamb, também roubada na mesma época de outra galeria.

As duas peças, avaliadas em mais de US$ 200 mil, não foram encontradas numa batida policial ou em um cofre suíço, mas numa coleção de herança em Connecticut. A história da sua recuperação é um raro roteiro sobre a intersecção entre o acaso, a tecnologia e a integridade em um mercado nem sempre conhecido por ela.

A trilha digital

A redescoberta começou com o olhar treinado do antiquário Brandon Levine, que, ao se deparar com as obras, suspeitou se tratar de trabalhos de Johnson. Seguindo o conselho de Sandra Germain, proprietária da casa de leilões Shannon’s, Levine consultou o catálogo raisonné online do artista — um inventário digital completo. Ali, ambas as pinturas estavam listadas como roubadas. A confirmação final veio do Art Loss Register, o maior banco de dados privado do mundo sobre arte perdida e subtraída.

A tecnologia, nesse caso, serviu como uma máquina do tempo, conectando um crime do passado a uma oportunidade de reparação no presente. O que antes dependeria de arquivos empoeirados e da memória de poucos especialistas, hoje se resolve com alguns cliques, transformando qualquer antiquário atento em um potencial detetive.

O valor da integridade

Confirmada a origem ilícita, a história poderia ter tomado outro rumo. Obras com procedência duvidosa frequentemente desaparecem novamente no mercado cinza. Mas, segundo Germain, “todos fizeram a coisa certa”. A família que herdou as telas, ao ser informada, concordou prontamente com a devolução. As galerias originais, ou seus descendentes, foram localizadas e receberam as obras de volta.

Eastman Johnson, conhecido em seu tempo como o “Rembrandt Americano”, notabilizou-se por seu realismo e sensibilidade. A recuperação de suas obras é significativa não apenas pelo valor monetário, mas pelo que revela sobre o ecossistema da arte. A cooperação entre antiquário, leiloeira e herdeiros compõe uma narrativa que destoa do cinismo habitual do setor.

O valor de mercado das pinturas é estimado em mais de US$ 200 mil, mas o valor real desta história talvez não esteja na tela. Reside na rara demonstração de que, mesmo num ambiente movido por cifras, a integridade ainda pode ser a peça mais valiosa da coleção.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews