Numa retrospectiva da obra de Barbara Hammer no Leslie-Lohman Museum em 2018, uma de suas peças, o filme Pond and Waterfall (1982), era exibida ao lado de um estetoscópio. O convite era para que o espectador o colocasse no peito. A experiência, segundo uma reportagem da revista ARTnews, era a de ouvir o próprio coração pulsar enquanto a câmera de Hammer absorvia árvores verdes e a água salpicada de sol. Pela primeira vez, o público produzia a própria trilha sonora para uma obra de arte.

A anedota encapsula a obsessão de uma vida inteira. Para Hammer, falecida em 2019, a arte nunca poderia ser desvinculada do corpo. Um novo documentário, Barbara Forever, dirigido por Brydie O’Connor, mergulha nessa filosofia. O filme dispensa a estrutura biográfica tradicional para construir um retrato que é, ele mesmo, tátil: composto quase inteiramente por imagens dos filmes da própria artista, guiado por sua voz. “Quero que esta exibição seja tátil”, diz Hammer em uma antiga gravação. “Quero que vocês vejam e sintam as imagens na tela.”

Um corpo estranho

A obra de Hammer, que floresceu nos anos 1970 na efervescente cena da Bay Area, foi uma reação direta ao que ela não via representado na arte de seu tempo. Enquanto o cinema estrutural e o minimalismo dominavam o discurso com uma abordagem cerebral e descorporificada, Hammer voltava sua câmera para o que havia de mais concreto: o corpo lésbico em descoberta e desejo. Filmes como Dyketactics (1974) e Multiple Orgasm (1976) mostravam corpos femininos se tocando, se sobrepondo a paisagens, celebrando uma erótica até então invisível nas telas.

“Tocar o corpo de outra mulher mudou minha vida”, afirma sua voz no documentário. “Isso tinha que ser mostrado.” A ousadia, no entanto, teve seu preço. Instituições como o MoMA, que hoje possui nove de seus trabalhos, inicialmente rejeitaram seus filmes pelo conteúdo explícito. O National Endowment for the Arts, principal agência de fomento à cultura dos EUA, também lhe negou financiamento. O establishment artístico não estava pronto para uma obra que não apenas desafiava convenções estéticas, mas também tabus sociais profundos.

A câmera como arquivo

Barbara Forever reflete a abordagem de sua protagonista ao evitar o didatismo. Não há entrevistas com curadores ou historiadores contextualizando sua importância. A narrativa começa com sua saída do armário nos anos 70, não com seu nascimento. A diretora Brydie O’Connor opta por reanimar Hammer através de seu próprio olhar, uma escolha que espelha a fusão entre vida e obra da cineasta. Essa consciência da mortalidade, aguçada por sua longa batalha contra um câncer de ovário, a levou a se dedicar à preservação de seu legado.

O filme documenta esse esforço, mostrando Hammer encaixotando filmes e documentos que hoje compõem seu arquivo na Beinecke Library, da Universidade Yale. “É mais do que a minha vida”, diz ela em cena. “É uma história da arte queer.” A frase revela a dimensão de seu projeto: sua obra não era apenas expressão pessoal, mas a construção de um arquivo histórico para uma experiência que a história da arte havia ignorado. A sua eventual aceitação, com múltiplas participações na Bienal do Whitney a partir de 1987, sinalizou uma mudança sísmica no próprio mundo da arte.

O documentário destaca uma cena em que Hammer ministra um workshop. Ela instrui os alunos a segurarem a câmera de uma maneira específica: “Se você colocar o cotovelo no quadril”, diz, pressionando o equipamento contra o corpo, “você está realmente localizado”. A instrução é uma metáfora para toda a sua produção. A câmera não era uma ferramenta para observar o mundo à distância, mas um órgão, uma extensão do corpo para senti-lo. Sua arte não era apenas sobre o corpo; era parte dele.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews