A safra de livros de agosto, destacada em publicações como a Film Comment, revela um movimento contínuo de decifrar o cinema através da palavra escrita. Longe de serem meros compêndios acadêmicos, os novos títulos mergulham em histórias de bastidores, trajetórias de cineastas radicais e experimentos narrativos que conectam a tela à página. A leitura que emerge é que a análise histórica e a criação literária são ferramentas indispensáveis para compreender as tensões que definiram – e continuam a definir – a sétima arte e a própria ficção.
As histórias por trás da história
Dois eixos principais se destacam. O primeiro é o resgate crítico. Em The Curse of Queen Kelly, Pamela Hutchinson reconstitui a produção caótica do filme de Erich von Stroheim de 1929, uma trama que envolve a estrela Gloria Swanson e seu coprodutor (e amante) Joseph Kennedy, pai do futuro presidente americano. A obra é descrita como uma investigação sobre poder, catástrofe e estrelato na era silenciosa de Hollywood. Na mesma veia revisionista, outros títulos exploram o cinema de Robert Kramer, um expoente do cinema engajado, e as ecodistopias dos anos 1970, com foco especial em David Cronenberg, cujos filmes expõem a porosidade entre o corpo e o ecossistema.
O segundo eixo transita do cinema para a literatura, e vice-versa. A publicação de Élisabeth, único romance do cineasta da Nouvelle Vague Eric Rohmer, escrito em 1946, revela um autor já obcecado pelos detalhes sensoriais que marcariam sua obra cinematográfica. Em paralelo, o novo livro de Rachel Cusk, Life of M, consolida a autora como a "rainha reinante da autoficção". Ao esmaecer as linhas entre narrador e autor e desconstruir a noção de personagem, Cusk dialoga com a experimentação formal que também move o cinema de vanguarda.
Esses lançamentos mostram que o diálogo entre as duas artes permanece fértil. Mais do que fontes para adaptações, literatura e cinema compartilham um vocabulário crítico e criativo para investigar as complexidades do mundo, seja ele real ou ficcional.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Criterion Daily





