A discussão sobre estoques de carbono naturais invariavelmente evoca imagens de vastas florestas tropicais. No entanto, um cofre de carbono ainda mais denso e muito menos visível reside nas costas tropicais do planeta: os manguezais. Esses ecossistemas não apenas são vitais para a vida marinha e a proteção costeira, mas também guardam sob suas raízes um tesouro climático que o mundo está começando a dilapidar.
A tese central, detalhada em uma análise do portal Xataka, é que o verdadeiro perigo não está apenas no corte das árvores, mas na perturbação do solo que elas sustentam. Ao drenar e escavar o lodo rico em matéria orgânica para dar lugar a fazendas de camarão, arrozais ou plantações de palma, estamos liberando carbono que permaneceu aprisionado por séculos, transformando um sumidouro em uma fonte de emissões.
O tesouro escondido no lodo
A extraordinária capacidade de armazenamento dos manguezais reside em sua biologia única. Adaptados a um ambiente salino e com inundações diárias, suas raízes complexas retêm sedimentos, folhas e outros detritos orgânicos. O solo permanentemente encharcado e pobre em oxigênio retarda drasticamente a decomposição. O resultado é um acúmulo de lodo escuro que pode atingir metros de profundidade, funcionando como um depósito de longo prazo para o que se convencionou chamar de “carbono azul”.
Estudos citados pela reportagem original apontam que a maior parte desse carbono não está na biomassa visível — os troncos e folhas —, mas sim no solo. Uma análise global de 2018 calculou que, de 4,2 bilhões de toneladas de carbono estocadas em manguezais, cerca de 3 bilhões estavam no primeiro metro de profundidade do solo. Hectare por hectare, esses ecossistemas podem guardar várias vezes mais carbono que florestas terrestres.
A conta da destruição
Quando um manguezal é removido e o terreno é drenado, o processo secular se inverte. A matéria orgânica antes submersa é exposta ao oxigênio, acelerando sua decomposição e liberando dióxido de carbono na atmosfera. O impacto é mensurável: entre 2000 e 2012, o mundo perdeu cerca de 2% de sua área de manguezais, o que pode ter resultado na emissão de até 320 milhões de toneladas de CO2.
A destruição, contudo, não é uniforme. Países como Indonésia, Malásia, Papua Nova Guiné e o próprio Brasil concentram cerca de metade de todo o carbono armazenado nos manguezais do planeta, tornando-os áreas críticas. O Sudeste Asiático, em particular, tornou-se um epicentro da conversão desses ecossistemas para a aquicultura e agricultura, pagando um preço climático invisível.
O debate sobre soluções climáticas baseadas na natureza frequentemente se concentra no plantio de novas árvores. A saga dos manguezais, no entanto, sugere que a prioridade talvez devesse ser proteger os cofres de carbono que já existem, mesmo que eles não tenham o apelo visual de uma grande floresta. A questão que permanece é como conciliar o desenvolvimento econômico costeiro com a preservação de um dos mais eficientes e frágeis reguladores climáticos da Terra.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Xataka





