O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) publicou em suas redes sociais um vídeo gerado por inteligência artificial que o projeta como futuro presidente da República. Na peça, que emula um formato de meme viralizado na internet, uma versão mais jovem do político conversa com sua versão criança sobre a jornada até o Planalto, culminando com a chegada de um Flávio mais velho, já com a faixa presidencial.
O movimento, reportado pelo Money Times, não é um fato isolado. Trata-se da mais recente e explícita manobra em uma estratégia de comunicação que abraça a IA generativa para construir narrativas. A peça sinaliza a normalização de ferramentas sintéticas na pré-campanha eleitoral brasileira, testando os limites da tecnologia e da percepção do eleitorado.
A estética do meme no Planalto
O ponto central da tática de Bolsonaro não é apenas o uso da tecnologia, mas a apropriação da linguagem da internet. Ao adotar o formato de meme, a campanha busca um verniz de autenticidade e leveza, contornando o ceticismo que geralmente acompanha a propaganda política tradicional. A narrativa de predestinação, embalada como entretenimento viral, torna-se mais palatável e disseminável.
Esta não é a primeira vez. O senador já utilizou IA para se retratar como um herói de ação pilotando um caça ao lado do pai, Jair Bolsonaro, ou para criar imagens que atacam adversários como o presidente Lula. O padrão é claro: usar a IA não para fabricar desinformação factual, mas para construir um universo ficcional e emocionalmente carregado, onde o político é sempre o protagonista heroico.
O dilema regulatório
O vídeo de Flávio Bolsonaro expõe um desafio imediato para as autoridades eleitorais. O conteúdo não é, estritamente, uma fake news. Não há uma mentira factual verificável. No entanto, é inegavelmente uma peça de manipulação de imagem que utiliza tecnologia para criar uma realidade aspiracional e vendê-la como um futuro plausível. Isso cria uma zona cinzenta para a regulação.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já debate regras para o uso de IA nas eleições, mas o caso ilustra a dificuldade da tarefa. Como diferenciar o uso criativo de uma ferramenta da propaganda enganosa? A velocidade com que essas peças podem ser criadas e distribuídas em massa excede a capacidade de resposta de qualquer órgão regulador, transformando o campo digital em um laboratório para novas formas de persuasão política.
O vídeo é, portanto, mais do que uma curiosidade digital. Funciona como um balão de ensaio para um novo tipo de comunicação política, onde a construção de narrativas sintéticas pode se tornar tão importante quanto comícios e debates. A eficácia dessa estratégia e a capacidade das instituições de se adaptarem definirão os contornos dos próximos ciclos eleitorais no país.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times



