O governo dos Estados Unidos elevou a temperatura nas relações comerciais com o Brasil ao anunciar uma nova sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros, com início previsto para 22 de julho. A medida é resultado de uma investigação sob a Seção 301, que apura práticas comerciais consideradas desleais por Washington.
O ponto de maior atrito, no entanto, não está no agronegócio ou na indústria, mas no sistema financeiro. A Casa Branca classificou o Pix, o sistema de pagamentos instantâneos operado pelo Banco Central, como um dos pilares da sua queixa. A leitura aqui é que, para os EUA, o sucesso de uma infraestrutura digital pública representa uma barreira de mercado para suas empresas de tecnologia e finanças.
A lógica por trás do ataque
O argumento americano, vocalizado pelo representante de comércio Jamieson Greer, não pede o fim do Pix, mas sim o que ele define como “igualdade de condições”. Segundo Greer, o fato de o sistema ser de propriedade e operação estatal confere a ele um “tratamento especial” que prejudica a competição com empresas americanas. A declaração mira diretamente o modelo de infraestrutura digital pública que o Brasil exporta como um caso de sucesso.
Para Washington, o ideal seria um ecossistema onde players privados pudessem competir pela infraestrutura base, não apenas pelas camadas de serviço construídas sobre uma base estatal. A ofensiva, portanto, é menos sobre o Pix como produto e mais sobre a filosofia por trás dele: a de que infraestruturas digitais críticas podem e devem ser um bem público, e não um mercado a ser explorado por empresas privadas.
Pragmatismo e soberania digital
Apesar da retórica dura, a Casa Branca demonstrou pragmatismo ao isentar das tarifas produtos essenciais para sua própria economia, como café, suco de laranja, petróleo e carne bovina — esta última, justificada pela menor manada de gado nos EUA em 75 anos. Isso sugere uma estratégia de pressão calculada, e não uma ruptura total.
Contudo, ao colocar o Pix no mesmo cesto de queixas que incluem desmatamento e barreiras ao etanol, os EUA elevam uma questão de arquitetura de sistema de pagamentos a um impasse geopolítico. O movimento desafia a soberania digital do Brasil e serve de aviso a outras nações que consideram adotar modelos similares de infraestrutura pública, como o UPI na Índia. A disputa pelo futuro dos pagamentos deixou de ser apenas tecnológica para se tornar um capítulo da nova guerra fria comercial.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney




