Oz Lancaster, designer de interiores baseada em Londres, tem uma palavra tatuada na pele: SABIR, um termo associado à paciência em diversas culturas. A ironia, ela admite, não lhe passa despercebida. Fascinada pela velocidade — de um iate cortando a água, da engenharia de um carro, de uma ideia que se torna realidade —, Lancaster confessa que, quando quer algo, “queria para ontem”. No entanto, é no seu ofício, desenhando interiores para algumas das residências e superiates mais exclusivos do mundo, que essa paciência é posta à prova.

Para ela, paciência não significa lentidão, mas a disciplina de permanecer com uma ideia o tempo suficiente para levá-la além do óbvio. “O design nunca termina de verdade”, afirma em entrevista à Forbes Espanha, que inspira este perfil. “É um processo de moldar, questionar e empurrar. Sempre há outro detalhe, outra possibilidade, outra maneira de ser melhor”. Essa tensão entre urgência e esmero define a essência de seu trabalho, que transcende a mera decoração para se tornar uma forma de arquitetura em constante movimento.

A dupla identidade criativa

O que torna o olhar de Oz Lancaster único é a fusão de duas identidades. Sua criação no Chipre lhe deu um instinto para a calidez, a generosidade e a forma como as cores mudam com a luz do Mediterrâneo. Londres, para onde se mudou para estudar design e fundar seu estúdio, OS Designs & Partners, adicionou o contraponto: complexidade, disciplina arquitetônica e uma energia urbana que afiou sua percepção sobre proporção e detalhe. Um lado suavizou seu olhar, o outro o tornou mais agudo.

Essa combinação se tornou central em seu trabalho. Clientes não a procuram por um “estilo Oz Lancaster” reconhecível, mas por sua sensibilidade, instinto e capacidade de criar algo autêntico. “Nunca me interessei em correr a corrida de outra pessoa”, diz. “Para mim, sempre se tratou de competir comigo mesma”. Essa postura a leva a rejeitar a reprodução de ideias pré-concebidas de luxo, buscando, em vez disso, criar algo que pertença unicamente àquele cliente, naquele lugar e naquele momento, ancorada por suas raízes que a mantêm “com os pés no chão”.

Arquitetura em movimento

Essa filosofia é particularmente visível em seus projetos náuticos. “Nunca vejo um iate como uma simples coleção de cômodos bem decorados”, explica. “Um iate é arquitetura em movimento. Cada centímetro importa”. Aqui, o desafio é trabalhar com proporção, circulação, engenharia, peso, luz e, fundamentalmente, com a experiência de um espaço que se desloca por uma paisagem em constante mudança. A complexidade técnica não intimida, mas inspira.

Um dos exemplos mais claros dessa abordagem é sua colaboração com o renomado estaleiro holandês Feadship no Concept C, criado para o 75º aniversário da marca. Partindo do diamante como conceito central — por suas facetas, precisão e relação com a luz —, Lancaster integrou formas orgânicas para suavizar a linguagem arquitetônica. O resultado são espaços onde o luxo não precisa anunciar seu valor. Ele se revela aos poucos, no encontro de um plano, numa linha de sombra, na forma como a pedra encontra a madeira. Para ela, palavras como “sob medida” já se esvaziaram. “Me interesso muito mais em criar algo que não existia antes”.

O trabalho de Oz Lancaster é um exercício contínuo de evolução. Sua obsessão não é por um estilo, mas pelo movimento adiante, pela recusa em aceitar a primeira solução como a melhor. Seus espaços são descritos em termos emocionais: um banheiro é um “teatro privado de água, pedra e luz”; um escritório, o lugar “onde as ideias se afiam”. Talvez a melhor forma de entendê-la não seja através de um iate ou de um material, mas pelo paradoxo que ela mesma encarna: a paixão pela velocidade e a devoção à paciência. Ela pode até querer tudo para ontem, mas não tem nenhuma pressa para deixar de se reinventar.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España