O HSBC passou a recomendar cautela com o real, projetando maior volatilidade para a moeda brasileira à medida que se acirra a disputa eleitoral. O banco montou uma posição vendida em real contra o peso mexicano, apostando que a divisa brasileira terá um desempenho inferior a seus pares latino-americanos no curto prazo. A análise foi detalhada por Joseph Incalcaterra, chefe de estratégia macro para a América Latina do banco, em entrevista exclusiva ao portal Money Times.
A tese do HSBC se desdobra em dois atos. O primeiro, de curtíssimo prazo, é dominado pelo ruído político de uma eleição que o mercado percebe como cada vez mais competitiva. O segundo, de médio prazo, será definido pela capacidade — ou incapacidade — do próximo governo em apresentar um plano fiscal crível. Para o banco, este segundo ato é o que verdadeiramente definirá o destino da moeda, que segue tendo as contas públicas como seu principal “calcanhar de Aquiles”.
O colchão dos juros e o ruído da urna
Até agora, a taxa Selic em patamares elevados tem funcionado como um forte anteparo para o real. O alto diferencial de juros em relação às economias desenvolvidas torna a aposta contra a moeda brasileira uma operação cara, o que limita uma desvalorização mais acentuada. Nas palavras do estrategista do HSBC, “sem os juros atuais, o BRL estaria muito mais fraco”. Esse colchão de proteção, no entanto, tende a perder relevância conforme a data da eleição se aproxima.
Segundo Incalcaterra, quanto mais apertada a disputa, mais sensível o câmbio se torna às pesquisas e aos eventos políticos. Nesse cenário, a incerteza por si só — independentemente do vencedor — leva investidores a buscarem proteção, aumentando posições em dólar e, consequentemente, a volatilidade. A leitura é que o prêmio oferecido pelo carry trade já não compensa o risco político iminente, fazendo com que o foco se desloque da política monetária para o resultado das urnas.
O dia seguinte: a conta fiscal
Passado o ciclo eleitoral, a atenção do mercado se voltará inteiramente para a política fiscal. A principal preocupação, segundo o HSBC, é o risco de uma frustração das expectativas. O mercado financeiro aguarda um plano claro para a estabilização da dívida pública logo no início do novo mandato. Se o governo eleito não entregar um pacote de medidas considerado robusto, a reação pode ser uma forte depreciação do real.
Essa percepção de risco já levou o banco a revisar suas projeções. Anteriormente, o HSBC trabalhava com um dólar a R$ 4,80, mas agora prevê a moeda americana na faixa de R$ 5,00 a R$ 5,10 no fim do ano. Para o HSBC, o grande risco para o real nos próximos meses é mais doméstico do que externo. Uma eventual frustração na agenda fiscal, combinada a sinais de desaceleração da economia, criaria um cenário particularmente adverso para a moeda.
A dinâmica do real, portanto, está em um equilíbrio delicado. A eleição é o gatilho da volatilidade imediata, mas não a causa estrutural da fragilidade da moeda. O veredito final do mercado não será sobre o nome que sairá vitorioso das urnas, mas sobre a sua disposição para enfrentar o problema fiscal que o Brasil adia há anos. A conta, mais cedo ou mais tarde, chegará à taxa de câmbio.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





