O Banco do Japão (BOJ) deu um passo histórico, elevando sua taxa de juros para 1,25%, o nível mais alto em 31 anos. A decisão veio na esteira da divulgação de dados de inflação de agosto, que mostraram a persistência das pressões de preço na terceira maior economia do mundo. O núcleo do índice de preços ao consumidor, que exclui alimentos frescos, registrou alta de 1,7% no acumulado anual, próximo à meta de 2% da autoridade monetária.

O movimento sinaliza uma potencial virada de página em uma das mais longas e ousadas experiências monetárias da história moderna. Por décadas, o Japão foi sinônimo de deflação e juros zero ou negativos, uma anomalia em um mundo que, até recentemente, se preocupava majoritariamente em conter a inflação, não em criá-la. A questão que se impõe é se este aperto monetário é o início de uma normalização sustentada e quais serão as ondas de choque para o sistema financeiro global.

O fim da anomalia japonesa

Durante as chamadas “décadas perdidas”, a principal batalha do Banco do Japão não era contra a alta de preços, mas contra sua queda persistente. A deflação desincentiva o consumo e o investimento, criando um ciclo vicioso de estagnação econômica. Para combater esse fantasma, o BOJ inundou o sistema com liquidez e manteve os custos de capital artificialmente baixos, tornando-se um pilar de estabilidade — e de dinheiro barato — para os mercados globais.

Paradoxalmente, a inflação atual não é fruto de uma demanda doméstica robusta, o cenário ideal que o BOJ buscava. Ela é impulsionada por fatores externos: o aumento dos custos de energia e a forte desvalorização do iene, que encarece as importações. A leitura é que o banco central age de forma preventiva, temendo que a inflação importada contamine as expectativas e saia de controle, mesmo que os dados de núcleo ainda permaneçam ligeiramente abaixo da meta.

O carry trade em xeque

As implicações da decisão transcendem as fronteiras do Japão. Por anos, investidores globais se beneficiaram do chamado “yen carry trade”: tomar empréstimos a custo quase zero em ienes para investir em ativos de maior rendimento em outras moedas, como o dólar americano ou o real brasileiro. Essa arbitragem foi uma fonte massiva de capital para mercados de ações, títulos e moedas em todo o mundo.

Com a alta dos juros em Tóquio, esse diferencial diminui. O movimento pode desencadear uma repatriação de capital para o Japão, à medida que investidores desfazem suas posições. O resultado seria um iene mais forte e, potencialmente, uma maior volatilidade em mercados que se acostumaram com a liquidez japonesa. Para economias como a do Brasil, que frequentemente recebem esses fluxos, a mudança de ventos no Pacífico exige atenção.

A normalização da política monetária japonesa é um exercício de alto risco. O BOJ precisa calibrar o aperto para não sufocar uma recuperação econômica ainda frágil. Para o resto do mundo, o fim da era do dinheiro ultra barato no Japão representa a remoção de uma das últimas âncoras da antiga ordem financeira global. As consequências apenas começaram a se desenrolar.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times