Num movimento que desafia a cartilha da política monetária, o iene japonês retomou sua trajetória de queda frente ao dólar justamente após o Banco do Japão (BoJ) anunciar sua mais dura decisão em décadas. A autoridade monetária elevou os juros para 1,25%, o maior patamar em 31 anos, numa tentativa de conter a sangria da moeda. O mercado, no entanto, reagiu na direção oposta: o iene se desvalorizou cerca de 1,3%, atingindo a marca de 158 por dólar.
A reação expõe um paradoxo e a complexa encruzilhada em que se encontra a terceira maior economia do mundo. A medida veio depois de semanas de uma aparente estabilização, fruto de intervenções coordenadas entre Tóquio e Washington. A leitura do mercado, contudo, é que a dose do remédio foi fraca demais para o tamanho do problema, minando a credibilidade da estratégia do banco central.
Uma alta que não convenceu
A aposta do Banco do Japão não foi suficiente para impressionar investidores que já precificavam uma ação mais agressiva. Analistas, como os citados pela reportagem da Forbes Espanha, classificaram a comunicação do BoJ como “insuficiente em dureza monetária”. A incerteza foi amplificada por uma votação dividida dentro do comitê de política monetária, sinalizando falta de consenso sobre os próximos passos para combater uma inflação persistente e um déficit fiscal crescente.
O ceticismo tem fundamento histórico recente. Em agosto, o Ministério das Finanças do Japão confirmou ter gasto um valor recorde de 15,4 trilhões de ienes (cerca de € 83 bilhões) em operações para defender a moeda, que em julho havia tocado seu nível mais baixo desde 1986. O fato de que mesmo uma intervenção dessa magnitude teve efeito apenas temporário mostra a força das correntes contrárias.
O dilema japonês é estrutural. A autoridade monetária está presa entre a necessidade de fortalecer o iene para combater a inflação de importados — impulsionada pelo preço do petróleo e, curiosamente, pela forte demanda do setor de Inteligência Artificial por componentes dolarizados — e o risco de que juros muito mais altos possam asfixiar uma economia com uma dívida pública colossal. A reação do mercado deixa claro que, por enquanto, a política monetária sozinha parece ter perdido a capacidade de ditar os rumos do câmbio.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





