O Departamento de Estado americano removeu este mês uma pintura de Kehinde Wiley da embaixada do país na República Dominicana. A remoção foi celebrada pela embaixadora Leah Campos, nomeada pela administração Trump, como um afastamento de "ideologias globalistas e woke" em favor do "patriotismo americano".

A obra em questão, "Young Artists After Siamesas 1960", foi comissionada pelo próprio Departamento de Estado em 2013. A decisão de agora removê-la — e a consulta jurídica para uma possível venda — sinaliza uma guinada na diplomacia cultural, transformando a arte em um peão no tabuleiro da política interna dos EUA.

O artista e o símbolo

A escolha de Wiley como alvo não é acidental. O artista ganhou notoriedade global ao pintar o retrato presidencial de Barack Obama, tornando-se um símbolo de uma era política e cultural específica. Seu trabalho frequentemente explora temas de poder, raça e representação na história da arte, o que por si só já é uma declaração política. Segundo o site Hyperallergic, que reportou a notícia, o Departamento de Estado justificou a medida citando supostas "palavras e representações violentas e racistas" do artista, uma alegação que parece servir de pretexto para uma decisão de fundo puramente ideológico.

Diplomacia como campo de batalha

Embaixadas sempre funcionaram como vitrines da identidade nacional, mas a remoção da obra de Wiley eleva o tom, enquadrando a diplomacia cultural explicitamente na linguagem da "guerra cultural". O gesto sugere que a projeção de poder brando (soft power) dará lugar a uma demonstração de força ideológica, priorizando um nacionalismo restrito em detrimento do diálogo. A possibilidade de vender uma obra comissionada para um espaço diplomático específico é um rompimento notável de protocolo. Transforma um ativo cultural, pensado para construir pontes, em um item descartável para marcar uma posição política.

A remoção da pintura em Santo Domingo é, portanto, mais que uma decisão administrativa. É um ato que reconfigura a arte como território de disputa, onde o valor estético é subordinado a uma agenda partidária. A parede agora vazia na embaixada comunica uma mensagem tão potente quanto a obra que ali estava.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Hyperallergic