A Onalabs, uma startup de deep tech sediada em Barcelona, acaba de levantar mais de €9,3 milhões em uma rodada de captação para escalar sua tecnologia de monitoramento de saúde através de biomarcadores no suor. O que chama a atenção na operação é a origem do cheque principal: €4,6 milhões vieram diretamente do governo espanhol, através da Sociedade Espanhola para a Transformação Tecnológica (SETT).
O movimento, segundo reportagem da Forbes España, é mais do que um simples aporte de venture capital. Trata-se de uma aposta estratégica do Estado, utilizando fundos de recuperação da União Europeia para fomentar uma indústria nacional de bioeletrônica. A leitura é que a Espanha não quer apenas financiar startups, mas construir soberania tecnológica em uma área crítica para o futuro da saúde, transformando dados do suor em informação clínica por meio de IA.
A biometria além dos passos
A proposta da Onalabs, fundada pela biotecnóloga Elisabet del Valle e pelo químico Xavier Muñoz, representa um salto em relação aos wearables convencionais, que se limitam a métricas como frequência cardíaca e passos. A empresa desenvolveu uma plataforma que combina hardware próprio e inteligência artificial para analisar, de forma contínua e não invasiva, metabólitos como lactato, glicose e eletrólitos presentes no suor. É uma mudança de paradigma frente às análises de sangue, que oferecem um retrato pontual do estado de saúde.
Para mitigar o risco e o longo ciclo de desenvolvimento da área de saúde, a companhia adota uma estratégia de mercado dupla. No esporte de alta performance, já comercializa dispositivos que otimizam o desempenho de atletas — o FC Barcelona é um dos parceiros. Em paralelo, avança na validação clínica e regulatória de um wearable para uso hospitalar, com projetos-piloto em andamento em mais de dez hospitais para monitorar sinais vitais e, no futuro, doenças crônicas como diabetes.
O Estado como investidor estratégico
O investimento estatal é canalizado pelo programa ‘Next Tech’, parte do plano de recuperação pós-pandemia da UE. A tese do governo espanhol é clara: atuar como um investidor-paciente para acelerar a transição de tecnologias disruptivas do laboratório para o mercado. O objetivo não é apenas o retorno financeiro, mas também o desenvolvimento de uma cadeia produtiva local, incluindo a fabricação de sensores, para posicionar o país como um hub europeu em saúde digital.
A presença de fundos internacionais na rodada, como o austríaco 1921 Ventures e o nPrime, de Singapura, confere validação externa à tecnologia da Onalabs. O modelo de colaboração público-privada busca, assim, garantir a autonomia tecnológica da Espanha e, ao mesmo tempo, impulsionar a geração de empregos qualificados — a empresa planeja dobrar sua equipe de 30 pessoas com os novos recursos.
Com o capital em mãos, o desafio da Onalabs é multifacetado: escalar a produção, navegar as complexas barreiras regulatórias do setor de saúde e provar a eficácia clínica de sua tecnologia em larga escala. A aposta do governo espanhol está feita. Resta saber se o modelo será suficiente para transformar uma promessa da bioeletrônica em um pilar da saúde do futuro.
Source · Forbes España





