Astrônomos identificaram a estrela mais rápida conhecida na Via Láctea, um objeto que orbita o buraco negro supermassivo no centro de nossa galáxia, Sagittarius A*, a uma velocidade estonteante. Batizada de S301, a estrela atinge picos de 25.000 quilômetros por segundo — mais de 8% da velocidade da luz — em uma órbita de apenas 8,7 anos.

Mais do que um recorde cósmico, a descoberta, detalhada em reportagem do portal Space.com, representa um laboratório natural para testar um dos pilares da física moderna. A trajetória extrema de S301 oferece uma oportunidade sem precedentes para observar os efeitos da teoria da relatividade geral de Albert Einstein em um dos ambientes mais violentos do universo, podendo finalmente revelar uma propriedade fundamental de Sagittarius A*: sua rotação.

O laboratório de Einstein

A teoria da relatividade geral prevê que corpos massivos em rotação, como um buraco negro, não apenas curvam o espaço-tempo, mas o arrastam consigo. Este fenômeno, conhecido como precessão de Lense-Thirring ou "frame-dragging", é sutil e extremamente difícil de medir. A órbita de S301, no entanto, é um cenário ideal para detectá-lo.

Ao se aproximar a uma distância de apenas 12 vezes o raio da órbita da Terra ao redor do Sol, a estrela mergulha fundo no poço gravitacional de Sagittarius A*. Segundo os pesquisadores do Instituto Max Planck, responsáveis pelo estudo, a distorção no espaço-tempo causada pelo spin do buraco negro deve alterar gradualmente a órbita da estrela de uma forma que pode se tornar mensurável na próxima década. Seria a primeira vez que o spin de um buraco negro supermassivo seria medido diretamente.

Uma trajetória violenta

A órbita altamente alongada de S301 sugere uma origem dramática. A hipótese mais provável é que a estrela fazia parte de um sistema binário que se aproximou demais de Sagittarius A*. O buraco negro teria capturado S301 em uma órbita apertada, enquanto seu astro companheiro foi arremessado para longe, em alta velocidade, um mecanismo dinâmico comum em centros galácticos.

A equipe de astrônomos, que utilizou o instrumento GRAVITY no Chile para a descoberta, continuará monitorando a estrela, com a próxima aproximação máxima prevista para 2031. A observação de duas órbitas completas pode fornecer os dados necessários para confirmar as previsões de Einstein e decifrar a rotação do gigante adormecido no coração da Via Láctea.

A descoberta, publicada na revista Nature, reforça como os extremos do cosmos continuam a ser o campo de provas definitivo para nossas teorias mais fundamentais. A dança de S301 não é apenas uma curiosidade celeste, mas um experimento de alta precisão, escrito em luz e gravidade, aguardando para ser lido.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Space.com