O mercado de aberturas de capital vive um de seus melhores momentos recentes. No primeiro semestre de 2026, 58 startups investidas por fundos de venture capital realizaram seus IPOs com valuations acima de US$ 1 bilhão, um salto considerável em relação às 27 do mesmo período em 2025. O volume financeiro também impressiona: foram US$ 110,8 bilhões levantados, contra apenas US$ 12,6 bilhões no ano anterior, um número inflado pela listagem histórica da SpaceX em junho.

Com o fim do ano no horizonte, a janela de oportunidade para novas listagens começa a se estreitar, e a atenção se volta para quem serão os próximos a testar o apetite dos investidores. Uma análise preditiva da Crunchbase, baseada em dados de financiamento, crescimento e contratações, aponta para uma safra heterogênea de candidatas. A lista vai muito além do epicentro da inteligência artificial, incluindo nomes de fintech, hardware de consumo e até tecnologia climática, sinalizando um teste de resiliência para múltiplos setores.

A onipresença da IA

No centro das atenções está, inevitavelmente, a Anthropic. A startup de modelos de linguagem, principal rival da OpenAI, já sinalizou a intenção de chegar ao mercado público antes de sua concorrente. Reportagens do The Wall Street Journal sugerem que a empresa poderia levantar até US$ 100 bilhões numa oferta já em setembro ou outubro. A análise da Crunchbase, no entanto, aponta um cronograma mais provável de seis a doze meses. Independentemente do prazo, seu IPO será um evento de liquidez monumental para os investidores que já aportaram US$ 125 bilhões na companhia desde sua fundação em 2021.

A corrida da IA não se limita aos modelos fundacionais. A SambaNova, que desenvolve chips e infraestrutura especializada para inteligência artificial, surge como uma candidata natural após o sucesso do IPO da Cerebras Systems. O CEO Rodrigo Liang já admitiu publicamente que a empresa avalia uma listagem nos EUA. Na camada de aplicação, a OpenEvidence, uma plataforma de IA para médicos, também figura na lista. Seu CEO, Daniel Nadler, adota uma visão sequencial: primeiro, os modelos fundacionais abrem capital; depois, as aplicações. Uma tese que ecoa a evolução da própria internet.

Além do hype: de fintech a clima

Se a IA domina as manchetes, a lista de potenciais IPOs revela uma economia de inovação mais diversificada. A Stripe, gigante de pagamentos, é uma presença perene nessas listas. Por anos, foi a startup mais valiosa dos EUA e adiou sua listagem, preferindo oferecer liquidez a funcionários através de ofertas secundárias. A dúvida é se 2027 será finalmente o ano em que a empresa de John Collison fará sua estreia, com as previsões indicando um movimento mais provável em seis a doze meses.

Outros nomes testarão teses de mercado específicas. A finlandesa Oura, fabricante de anéis inteligentes, medirá o interesse do público por hardware de saúde e bem-estar, uma categoria com poucos IPOs de grande porte. A corretora de criptoativos Kraken, que já havia engavetado planos de IPO devido à volatilidade do mercado, pode finalmente dar o passo, servindo como um termômetro para o setor. A lista se completa com a Notion, plataforma de produtividade que representa a força do software empresarial, e a sueca Stegra, uma produtora de “aço verde” que já levantou US$ 12,6 bilhões entre dívida e equity para financiar sua produção industrial sustentável.

O conjunto de candidatas mostra que, embora a IA seja o motor do otimismo, a saúde do mercado de capitais será testada em múltiplas frentes. A questão que paira sobre a mesa não é apenas quem vai, mas quem terá a coragem de aproveitar a janela atual antes que o cenário macroeconômico, sempre imprevisível, mude novamente.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Crunchbase News