Uma aliança firmada na Europa entre a Ford e a chinesa Geely tornou-se o mais novo foco de tensão na disputa geopolítica entre Washington e Pequim. Em uma carta enviada ao CEO da Ford, Jim Farley, o governo americano questionou duramente a decisão da montadora de aprofundar laços com uma empresa de um país considerado um “rival estratégico”. O alvo da discórdia é uma nova joint venture para operar a fábrica da Ford em Valência, na Espanha, a partir de 2027.

O movimento expõe o complexo tabuleiro em que operam as montadoras ocidentais. De um lado, a necessidade pragmática de se associar a empresas chinesas, líderes em baterias e plataformas para veículos elétricos, para acelerar sua própria transição. Do outro, a pressão política crescente, sobretudo nos EUA, por um desacoplamento tecnológico e industrial da China. A parceria, embora geograficamente distante e focada no mercado europeu, foi interpretada em Washington como um passo na direção errada.

A estratégia chinesa por outras vias

A Geely, que ainda não vende carros de sua própria marca nos EUA, tem executado uma sofisticada estratégia de expansão no Ocidente. Em vez de uma entrada direta, que enfrentaria barreiras tarifárias e políticas proibitivas — veículos importados da China pagam uma tarifa de 100% nos EUA —, o grupo chinês avança por meio de aquisições e alianças. A compra da sueca Volvo, vendida pela própria Ford em 2010, foi o primeiro grande passo. A nova parceria em Valência é a continuação dessa tática.

O acordo é comercialmente lógico: a Ford resolve a subutilização de uma planta com capacidade para 500 mil veículos anuais, enquanto a Geely ganha uma base de produção na Europa, contornando a pecha de “made in China” e tarifas mais altas. A joint venture, com 66% de participação da Ford e 34% da Geely, produzirá cinco modelos híbridos e elétricos. Para Washington, contudo, a lógica é outra: uma marca americana icônica estaria se tornando dependente de tecnologia chinesa, abrindo potenciais brechas de segurança, especialmente em veículos conectados.

O dilema de Detroit

A reação do governo americano não é um fato isolado. Ela se insere em um esforço mais amplo para limitar a presença de hardware e software chineses em setores críticos. A Polestar, outra marca do portfólio da Geely, já sentiu o peso dessa política: foi informada que não poderá mais vender carros novos nos EUA a partir do modelo 2027, devido a regulações sobre veículos conectados de “países adversários”. A leitura é que a Geely, diante da pressão, estaria priorizando a operação da Volvo, de maior penetração no mercado americano.

A Ford rechaçou as críticas, classificando a carta como uma “tentativa equivocada de obter atenção da mídia”. Em sua defesa, a companhia se posicionou como a mais americana das montadoras, citando seu volume de produção, empregos e exportações a partir dos EUA. A empresa também defendeu um acordo de licenciamento tecnológico com a fabricante de baterias CATL, também chinesa, argumentando que detém a propriedade e o controle da operação em Michigan. A troca de farpas revela a linha tênue que as corporações tentam trilhar entre a competitividade global e as lealdades nacionais.

A disputa entre a Ford e o governo americano é um microcosmo do realinhamento geopolítico em curso. As montadoras ocidentais estão presas entre o imperativo comercial de colaborar com os líderes da eletrificação e a crescente pressão política para construir muralhas. O desfecho deste caso específico pode sinalizar até onde as decisões de negócios continuarão independentes das agendas de segurança nacional. A questão para os conselhos de administração não é mais apenas se uma aliança faz sentido financeiro, mas se ela será politicamente permitida.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Expansión MX