A geração que escreve manifestos no TikTok sobre a ganância bilionária e a crescente desigualdade de renda encontrou, paradoxalmente, sua principal fantasia cultural na estética da extrema concentração de riqueza. Bilhões de visualizações se acumulam sob a hashtag #OldMoney, onde o estilo de vida dos super-ricos de outrora — roupas de polo, tweed, a calmaria de clubes de campo — tornou-se um dos movimentos de estilo mais visíveis da Geração Z. A eles se somam os vestidos de baile popularizados por séries como Bridgerton e The Gilded Age e a vida bucólica de vlogs de homesteading (autossuficiência rural).
O que emerge é um escape do caos moderno para a última era que se parecia exatamente com este caos. Segundo uma análise da revista Fortune, o período que a Geração Z escolheu para romantizar foi definido pela mesma desigualdade galopante, disrupção tecnológica e combustão política que hoje os motiva a fugir. A fuga, no entanto, não é para um lugar distante, mas para um reflexo no espelho do tempo.
A nostalgia de um tempo não vivido
O termo psicológico para este sentimento é anemoia: a nostalgia por uma era que nunca se conheceu. Distinta da nostalgia comum, que se baseia em memórias reais, a anemoia é uma memória imaginada, construída a partir de filmes, fotos e histórias. Pesquisas confirmam que não se trata de um fenômeno marginal. Um estudo do Human Flourishing Lab com mais de 2.000 adultos americanos revelou que 68% da Geração Z sente nostalgia por épocas anteriores à sua vida, e dois terços afirmam que explorar esses períodos os ajuda a lidar com o estresse e a ansiedade sobre o futuro.
Essa busca não é aleatória. Ela aponta para um mal-estar geracional específico, ligado à estagnação da mobilidade social, à crise de acessibilidade à moradia e a um fluxo incessante de informações negativas. A anemoia funciona como um sintoma econômico e psicológico. A estética de luvas de ópera, pães de fermentação natural e tricô manual oferece uma sensação de controle, textura e lentidão — qualidades que a Geração Z associa a um mundo anterior aos smartphones, à 'gig economy' e aos algoritmos que achataram a vida cotidiana em algo sem atritos e desorientador.
Um refúgio familiar
Mas por que especificamente o início do século 20? A resposta parece estar na estranha familiaridade estrutural entre aquela era e a nossa. O historiador Gideon Rose, do Council on Foreign Relations, argumenta que o período de 1890 a 1910 “certamente” se assemelha ao presente, citando mudanças tecnológicas, concentração econômica, polarização política e turbulência social como linhas que conectam os dois momentos. A ansiedade em relação à inteligência artificial hoje ecoa o deslocamento de mão de obra causado por ferrovias e mecanização na primeira 'Gilded Age'.
Os números confirmam o paralelo. Segundo a análise do economista Gabriel Zucman, hoje, as 18 famílias mais ricas dos EUA detêm 1,35% da riqueza nacional, superando o pico da 'Gilded Age' original, quando quatro famílias controlavam 0,85%. O 0,01% mais rico da população americana detém hoje cerca de 10% da riqueza do país, contra 9% no final da era dourada original. A tecnologia, antes e agora, avança mais rápido que as instituições capazes de gerenciar suas consequências sociais. A Geração Z parece ter se fixado nesse período porque é a versão do passado que exige menos imaginação para habitar; é tão estranhamente semelhante que mal precisa ser imaginado.
A contradição é o ponto central. A mesma geração que critica a concentração de capital adota a linguagem visual da classe que o acumulou. A estética 'old money' não é tanto hipocrisia, mas uma espécie de 'cosplay' de sobrevivência — um substituto curado para a segurança financeira que parece cada vez mais fora de alcance. O início do século 20 não é escolhido por ter sido melhor. É escolhido por ser reconhecível. A fuga não é para um paraíso perdido, mas para o epicentro de um ciclo que, assustadoramente, parece se repetir.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





