Em entrevista recente, Guilherme Benchimol articulou a fundação da XP não como o resultado de um plano de negócios visionário, mas como um instinto bruto de sobrevivência. O estopim foi uma demissão no início de sua carreira na corretora V Shop, seguida por uma frase de seu pai que o marcou profundamente: "Gente boa não é demitida". Sentindo-se envergonhado diante do círculo social no Rio de Janeiro, o executivo relata que a decisão de migrar para Porto Alegre foi, na essência, uma fuga. A admissão desmistifica a narrativa clássica do empreendedorismo por vocação, ancorando a gênese de uma instituição financeira na necessidade imediata de provar valor e escapar do fracasso.

O instinto de sobrevivência e a escassez

Ao chegar ao Rio Grande do Sul, Benchimol descreve um cenário de restrição absoluta. O fundador afirmou que, entre 2001 e 2002, chegou a ter menos de R$ 1.000 na conta, dependendo de um empréstimo de R$ 5.000 de um amigo para manter a operação de pé. A urgência financeira o levou a recorrer a bicos paralelos, como a compra de vales-refeição com deságio na porta de empresas como a Dell, lucrando com o spread para garantir a sua manutenção diária.

A estrutura societária inicial da XP também foi forjada pela falta de capital. Benchimol detalhou que sua esposa, Ana Clara, tornou-se sócia com 10% de participação simplesmente porque a empresa não tinha fluxo de caixa para pagar sua bolsa de estágio de R$ 350. Para contexto, a BrazilValley aponta que a distribuição de equity em estágios iniciais por falta de liquidez é uma tática comum em bootstrapping, embora raramente os fundadores admitam que o percentual foi definido de forma arbitrária e defensiva, como o executivo reconheceu na conversa. A virada do modelo de negócios ocorreu apenas quando a venda de cursos de educação financeira provou ser mais viável do que a captação direta de investimentos.

A travessia de 2008 e a chancela institucional

O segundo grande teste de estresse narrado por Benchimol ocorreu na crise de 2008. O executivo explicou que a XP havia acabado de investir todo o seu capital na compra da Americ Invest, então a última corretora do ranking da bolsa. Com o colapso dos mercados globais no mês seguinte, a empresa operou sem capital de giro ou fundo de reserva. O fundador relatou que os sócios passaram três anos sem receber salário e que foi necessário demitir quase metade da equipe — uma ironia moral pesada para quem havia construído o negócio fugindo do trauma de uma demissão. O antigo dono da corretora, Cléber, foi fundamental ao deixar suas ações como lastro no Banco Central para permitir a continuidade da operação.

A mudança de patamar, segundo o relato, veio em 2010 com o aporte liderado por Chukong. O fundo injetou R$ 100 milhões na XP, avaliando a companhia em R$ 500 milhões. Benchimol destacou que o capital trazia a credibilidade do fundo da coroa britânica, permitindo que a corretora deixasse de operar com a visão de curto prazo imposta pela falta de caixa. O estresse contínuo cobrou um preço físico e pessoal: Benchimol mencionou ter chegado aos 97 kg e relatou que a dedicação extrema à empresa o levou a sacrificar o convívio familiar por anos. A entrada de capital institucional chancelou o modelo de negócios de uma empresa até então vista como underdog no mercado financeiro tradicional.

A trajetória descrita por Benchimol evidencia como o trauma inicial e a escassez moldaram a cultura da XP. O medo do fracasso, que o fundador admite ainda bater à porta, funcionou como um motor de disciplina operacional. O aprendizado editorial que emerge é claro: a transição de um negócio de sobrevivência para um império financeiro exige não apenas resiliência para atravessar crises, mas a maturidade de aceitar a entrada de parceiros institucionais que forcem a companhia a pensar no longo prazo e estruturem o peso da gestão.

Fonte · Brazil Valley | Business