A Gávea Investimentos, uma das mais emblemáticas gestoras do país, decidiu encerrar sua operação de fundos multimercado macro, o negócio que foi seu carro-chefe por quase duas décadas. A gestão de um portfólio de cerca de R$ 2 bilhões, distribuído em seis fundos, será transferida para a Bradesco Asset, segundo um comunicado enviado a clientes e noticiado pelo Brazil Journal.

A decisão é o capítulo mais recente e talvez o mais simbólico da crise que assola a indústria de gestão ativa no Brasil. O movimento da casa fundada por Arminio Fraga não é um caso isolado, mas um sintoma agudo da dificuldade de gerar retornos acima do mercado — o chamado alfa — em um ambiente de juros de dois dígitos e forte competição de produtos mais baratos e eficientes, como os ETFs, e de alternativas de renda fixa com isenção fiscal.

O ocaso do gestor-estrela

O cerne da questão é se o modelo que consagrou a Gávea e tantos outros — baseado em mentes brilhantes capazes de fazer leituras de cenário únicas e monetizá-las — ainda se sustenta. Com uma taxa Selic persistentemente alta, o CDI se torna um adversário formidável. Para o investidor, a equação é simples: por que pagar taxas de administração e performance elevadas para um fundo que, como os da Gávea desde 2023, não consegue superar a renda fixa básica?

A resposta do mercado tem sido uma migração de capital. O encerramento da operação que foi o berço da Gávea, construída sobre a reputação de Fraga como ex-gestor de George Soros e ex-presidente do Banco Central, é uma admissão tácita de que a proposta de valor da gestão ativa tradicional está sob forte escrutínio. O alfa tornou-se raro e caro, e o mercado não parece mais disposto a pagar pela promessa dele.

Um novo foco para a Gávea

A gestora, contudo, não fecha as portas. O movimento é um pivô estratégico. A partir de agora, a Gávea se concentrará exclusivamente na gestão de seus investimentos existentes em private equity, área comandada por Luiz Fraga, cofundador da casa. Esta área tem em seu histórico investimentos em companhias como Azul, Stone e Camil, mas, segundo a reportagem, também não fará novas captações.

Este encolhimento estratégico completa um ciclo. Após ser vendida ao JP Morgan em 2010 e recomprada por seus sócios em 2015, a Gávea já havia deixado para trás as áreas de fundos de ações e imobiliários. A saída do negócio de multimercados macro representa um recuo para seu núcleo mais ilíquido e, talvez, mais defensável no cenário atual: a gestão de um portfólio legado de private equity, longe da pressão diária por liquidez e performance dos mercados públicos.

A decisão da Gávea não é um evento isolado, mas um marco. Ela força uma reflexão em toda a indústria de gestão de ativos: se nem a Gávea de Arminio Fraga consegue mais extrair alfa do cenário macro, qual o futuro da gestão ativa tradicional? A resposta, por enquanto, parece pender para produtos mais baratos e passivos, um desafio existencial para um setor construído sobre a promessa do brilhantismo individual.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Brasil Journal Tech