Uma conversa recente entre os historiadores Isaac Butler e Rosa Campbell, publicada pelo portal literário Lit Hub, serve como um poderoso lembrete de que o passado recente é um prólogo direto para as tensões do presente. Os dois autores, cujos livros mais recentes investigam as chamadas “guerras culturais” dos anos 1970 a 1990, dissecam um período de conflito sobre arte, sexo, religião e política que parece espelhar, em estrutura e tática, o cenário atual.
Butler, em “The Perfect Moment”, narra como as batalhas entre a direita religiosa, artistas e o governo federal americano moldaram a paisagem política contemporânea. Campbell, por sua vez, resgata a história de Shere Hite e seu “Relatório Hite”, um estudo sobre a vida sexual feminina que vendeu 50 milhões de cópias nos anos 70 antes de ser praticamente apagado da história. A análise conjunta deles não é um mero exercício de nostalgia, mas uma tese contundente: o roteiro do conflito cultural que vivemos hoje foi escrito décadas atrás.
O Roteiro Original
O ponto de partida das guerras culturais, segundo Butler, foi uma ofensiva altamente coordenada. Ele, que viveu a adolescência em Washington, D.C., em meio aos debates sobre financiamento público para as artes, direitos LGBTQIA+ e a crise da AIDS, acreditava que a reação conservadora era uma explosão espontânea de indignação. A pesquisa para seu livro, no entanto, revelou outra realidade. “O que eu não sabia era quão organizados e coordenados eram os ataques da direita”, afirma Butler. A ofensa, embora talvez genuína para o público, era “atiçada, moldada e coordenada nos bastidores por uma organização política incrivelmente sofisticada”.
Essa instrumentalização da indignação encontra eco na história de Shere Hite, contada por Campbell. O “Relatório Hite” foi um fenômeno global, mas sua autora e sua obra foram alvos de ataques que a taxavam de pornográfica, minando sua credibilidade. O fato de um estudo sociológico sobre a sexualidade feminina ser enquadrado como obscenidade demonstra, segundo Campbell, a eficácia da tática: qualquer expressão que desafie o status quo — especialmente vinda de mulheres ou minorias — pode ser deslegitimada ao ser rotulada como imoral ou perigosa. A suposta fronteira entre arte, ciência e pornografia se torna uma arma política, e quem decide onde ela está são os que detêm o poder.
A Vitória Imprevista do Capital
Um dos pontos mais fascinantes da conversa é a análise das alianças improváveis e das consequências não intencionais desses conflitos. Butler e Campbell apontam para a união entre feministas anti-pornografia, como Andrea Dworkin, e a direita religiosa para combater a livre expressão no que dizia respeito à pornografia. Para elas, a pornografia era uma forma de abuso; para eles, uma afronta à moral. O paralelo com hoje, notam os autores, é a aliança entre certos grupos feministas e a direita em pautas anti-transgênero.
Contudo, o grande vencedor das guerras culturais não foi nem a esquerda progressista nem a direita moralista. Foi o neoliberalismo. Butler observa como a lógica de mercado transformou a própria provocação em um produto. A década de 1990, que começou com discursos presidenciais contra a má influência de Bart Simpson, terminou com “South Park: Maior, Melhor e Sem Cortes” indicado ao Oscar. A transgressão foi absorvida e monetizada. Campbell complementa, afirmando que os “mundos de pesadelo” temidos por ambos os lados — a permissividade total para a direita, a degradação da mulher para as feministas anti-pornografia — se materializaram não por causa da arte de vanguarda, mas pela lógica do capital. “Não foi Karen Finley [artista performática censurada na época] que fez ‘Girls Gone Wild’ surgir”, diz Campbell.
No fim, a conversa não oferece soluções, mas um diagnóstico afiado. Butler aponta para a crise do liberalismo clássico: seus valores de livre expressão e debate aberto se tornam uma desvantagem estrutural quando o outro lado joga de má-fé. A questão que paira, tanto para os EUA quanto para outras democracias sob pressão, como o Brasil, é como resolver esse impasse. A sugestão de Campbell, inspirada em Shere Hite, é um chamado à lucidez: “Não sejamos ingênuos sobre nossas vidas sexuais”. A lição, ao que parece, se estende à vida política: é preciso entender as dinâmicas de poder que operam sob a superfície do debate público, antes que a história se repita, mais uma vez, como farsa e como tragédia.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Lit Hub





