O mercado brasileiro de venda de carteiras de crédito inadimplente deve movimentar R$ 40 bilhões em 2026, um crescimento de quase 20% em relação à projeção para 2025. A estimativa é da Recovery, empresa de recuperação de crédito do grupo Itaú, e foi divulgada em reportagem da Bloomberg Línea.

Este volume, se confirmado, representaria um recorde para o setor, desconsiderando os anos atípicos de 2020 e 2021, quando o auxílio emergencial inflou temporariamente as cessões de dívida. A leitura aqui é que o crescimento deste mercado secundário revela a maturação de uma indústria que transforma o endividamento em um ativo financeiro sofisticado — e, ao mesmo tempo, um sintoma da saúde econômica do país.

A engrenagem do calote

O mercado de cessão de crédito funciona como uma válvula de escape para o sistema financeiro. Bancos e grandes varejistas "limpam" seus balanços ao vender, com grande deságio, carteiras de dívidas consideradas de difícil recuperação. Do outro lado, compradores especializados como a Recovery apostam em sua capacidade de reaver uma fração desses valores com lucro, utilizando tecnologia, análise de dados e escala nas operações de cobrança.

O volume de R$ 17 bilhões negociado apenas no primeiro semestre deste ano, em linha com o mesmo período do ano anterior, mostra que a engrenagem está bem azeitada. A projeção de R$ 40 bilhões, segundo o CEO da Recovery, Bruno Russo Franco, seria um recorde "sem nenhuma ação externa", indicando que o fenômeno se tornou estrutural, e não mais um efeito colateral de crises pontuais.

A expansão deste mercado é um paradoxo. Por um lado, demonstra a resiliência de um sistema financeiro que aprendeu a precificar e a negociar seus próprios riscos. Por outro, funciona como um termômetro preciso da pressão sobre o orçamento das famílias. Os bilhões em jogo não representam apenas uma oportunidade de negócio, mas o tamanho do desafio econômico que persiste para milhões de brasileiros.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Bloomberg Línea