Em entrevista recente, o ex-chefe de design da Apple, Jony Ive, e o diretor de design da Ferrari, Flavio Manzoni, detalharam a arquitetura da Ferrari Luce, o primeiro veículo totalmente elétrico da montadora italiana. O modelo rompe com os precedentes da marca em múltiplas frentes: além da motorização elétrica, adota uma configuração inédita de cinco lugares. Com quatro motores independentes, 1.035 cavalos de potência e aceleração de 0 a 100 km/h em 2,5 segundos, o projeto foi estruturado não para competir em volume de vendas — o preço estimado orbita o topo do portfólio da marca —, mas para estabelecer um novo paradigma de interação entre o motorista e o veículo elétrico.
A rejeição do mimetismo digital
A principal tese de Ive no desenvolvimento da cabine da Ferrari Luce é a dissociação entre propulsão elétrica e interfaces digitais. O designer classificou como presunçosa a suposição da indústria de que carros elétricos exigem telas onipresentes. Em vez de adotar painéis sensíveis ao toque para funções críticas, a equipe priorizou controles táteis, incluindo interruptores físicos, mostradores rotativos e uma chave composta por couro, aço inoxidável e vidro.
Ive argumenta que a tecnologia multitoque, embora fundamental para smartphones, representa um risco em veículos por exigir que o usuário desvie o olhar da via. Além disso, a equipe rejeitou ativamente a inclusão de ruídos artificiais que emulassem motores a combustão, uma prática comum no mercado. Para Ive, os consumidores valorizam a autenticidade e reconhecem soluções falsas. A abordagem buscou criar novas formas de conexão física com o carro, utilizando o "manettino" — tradicional seletor de condução da Ferrari — integrado a módulos no volante que respondem a estímulos visuais de alto contraste.
Para contexto, a BrazilValley aponta que a recusa em adotar telas centrais massivas contraria a tendência dominante estabelecida por montadoras americanas e asiáticas na última década, posicionando a interface física analógica como um elemento de luxo e segurança, em vez de uma limitação tecnológica remanescente.
Aerodinâmica e a folha em branco
Do ponto de vista estrutural, a transição para o modelo elétrico eliminou a necessidade do túnel central de transmissão, permitindo o que Manzoni descreveu como uma "tábula rasa" espacial. O reposicionamento do pacote de baterias no assoalho abriu caminho para a cabine de cinco lugares, uma anomalia na linhagem de esportivos da marca.
A ausência do motor frontal também alterou fundamentalmente as prioridades aerodinâmicas da Ferrari. Enquanto modelos recentes a combustão, como o F80, são desenhados com foco em gerar downforce extremo para manter o carro preso ao solo, o design da Luce priorizou o coeficiente de arrasto para maximizar a eficiência da bateria, que promete cerca de 530 quilômetros de autonomia. O resultado é um veículo com laterais quase planas, rodas niveladas e uma linguagem visual baseada no "squircle" (uma fusão geométrica entre quadrado e círculo), integrando um exoesqueleto que direciona o fluxo de ar de maneira inédita para a fabricante.
A Ferrari Luce representa um teste de estresse para a identidade da montadora. Manzoni citou o compositor Gustav Mahler para justificar a ruptura: "A tradição não é a adoração das cinzas, mas a preservação do fogo". Em um cenário onde a transição energética reescreve as regras do setor automotivo, a colaboração entre Ive e Ferrari tenta provar que a adaptação tecnológica não exige a comoditização da experiência de direção. A aposta é que o valor do luxo esportivo migrará do som do motor para a precisão tátil e a pureza espacial.
Fonte · Brazil Valley | Business



