A crise de fornecimento de componentes de hardware está prestes a entrar em uma nova e mais severa fase, com a memória RAM e os SSDs no epicentro. Os preços, que já vinham em trajetória de alta, devem se intensificar nos próximos anos, com uma normalização prevista apenas para 2028, na visão mais otimista. A causa não é uma falha de produção, mas uma decisão estratégica dos maiores fabricantes.

Segundo reportagem do site espanhol Xataka, o trio que domina o mercado de memórias — Samsung, SK Hynix e Micron — firmou acordos de fornecimento de longo prazo, de até cinco anos, com os maiores operadores de data centers do mundo. A tese aqui é que a corrida pela infraestrutura de inteligência artificial criou um mercado paralelo que está sufocando a oferta para o restante da indústria, de computadores pessoais a smartphones.

O gargalo da IA

A mecânica do problema é direta. Jaejune Kim, vice-presidente executivo da Samsung, revelou que esses contratos de longo prazo já cobrem cerca de 65% da capacidade de produção de memória da companhia, com preços fixos. Em essência, os gigantes de tecnologia estão pré-comprando a produção futura de componentes para garantir a expansão de seus serviços de IA, muitas vezes para atender a uma demanda ainda incerta.

Isso cria um mercado de dois níveis. De um lado, os hiperescaladores de nuvem, com fornecimento garantido a preços travados. Do outro, todo o resto do mercado, que disputará os 35% restantes da capacidade produtiva. Para os fabricantes de memória, essa fatia menor da produção se torna uma oportunidade para ajustar preços conforme a escassez, o que na prática significa cobrar um prêmio significativo. A crise, portanto, deixa de ser cíclica e se torna estrutural.

Efeito em cascata

O impacto não se limita aos módulos de RAM. O gargalo se espalha por toda a cadeia de suprimentos. Placas de vídeo (GPUs), que dependem de memória dedicada, são diretamente afetadas; a Nvidia, por exemplo, deve reajustar seus preços em cerca de 30%. A AMD, por sua vez, estaria planejando lançar modelos com menos memória para manter os custos sob controle. O resultado é um produto final mais caro ou com especificações inferiores.

Os dados da DRAMeXchange, que monitora o setor, confirmam a tendência: a memória para PCs subiu 14,3% em julho, enquanto a memória NAND, usada em SSDs, saltou entre 35% e 51% no mesmo período. As previsões dos próprios fabricantes são sombrias. A SK Hynix projeta que 2027 será um dos piores anos para a indústria, enquanto a Samsung aponta para uma melhora apenas em 2028.

Para o consumidor e para empresas que dependem de hardware, a mensagem é clara: a era de preços de tecnologia em queda constante parece ter sido suspensa. A recomendação que ecoa no mercado é pragmática e desconfortável: quem precisa de um novo dispositivo deve se preparar para pagar o sobrepreço atual, antes que ele se torne ainda maior.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka