Lançado em 1986, em meio à crise da AIDS, 'A Mosca' de David Cronenberg foi rapidamente interpretado como uma alegoria sobre a deterioração corporal e o estigma que definiram a epidemia. Quatro décadas depois, o filme de horror mais bem-sucedido comercialmente do diretor canadense encontra uma nova e potente ressonância. A história da fusão genética entre um cientista e um inseto se tornou um espelho para a era da auto-otimização, do biohacking e da inteligência artificial.
Em um cenário cultural dominado pela promessa de que o corpo pode ser aperfeiçoado ou transcendido, a obra de Cronenberg funciona como um lembrete visceral de que a carne é indomável. A análise, proposta originalmente pela revista britânica Little White Lies, é que a fantasia de superar nossas limitações corporais, hoje encarnada por bilionários da tecnologia, é a mesma que leva o protagonista do filme à sua destruição.
A falha em lidar com a carne
O ponto de virada em 'A Mosca' ocorre quando o cientista Seth Brundle (Jeff Goldblum) descobre que sua máquina de teletransporte não consegue “lidar com a carne”. O dispositivo falha em reconstituir tecido vivo, um problema que Brundle, movido por uma vaidade quase infantil, acredita ter resolvido. Sua motivação para criar uma invenção que “mudará o mundo” é, afinal, livrar-se de um enjoo de movimento que o acompanha desde a infância — um desconforto banal que revela seu desprezo pelo corpo como um mero obstáculo.
Bêbado e com ciúmes, ele se teleporta e emerge sentindo-se purificado: mais forte, com mais energia e libido. É a fantasia da otimização em seu estado mais puro. O problema é que uma mosca entrou na cabine com ele. O computador, incapaz de distinguir a complexidade da vida, simplesmente funde os dois organismos. A metamorfose grotesca que se segue não é um defeito do sistema, mas sua conclusão lógica: a tentativa de reduzir a biologia a dados puros resulta em horror, não em perfeição.
Os herdeiros de Brundle
A desintegração de Brundle, que assiste seu corpo se rebelar contra sua vontade de permanecer humano, ecoa na relação contemporânea com a tecnologia. A indústria do bem-estar e da longevidade, financiada por figuras como Jeff Bezos, Sam Altman e Peter Thiel, opera sob a mesma premissa. Eles investem milhões em pesquisas antienvelhecimento, tratando a morte não como uma condição da existência, mas como mais um problema técnico a ser resolvido com capital e código.
Essa busca pela transcendência explora a mesma alienação que o filme retrata. A indústria de wellness vende a “conexão com o corpo” — através de aplicativos de meditação ou retiros corporativos — não como um fim em si, mas como um meio para otimizar a produtividade dentro da lógica capitalista. O corpo não deve ser compreendido, mas sim gerenciado para funcionar com mais eficiência. Brundle se destrói na tentativa de superar as limitações da carne; seus herdeiros no Vale do Silício amassam fortunas vendendo a mesma fantasia.
O filme, no entanto, evita o niilismo. A fragilidade do corpo, para Cronenberg, é a condição que torna a vida significativa. Como o próprio diretor afirmou, “quanto mais longe você fica do seu próprio corpo, menos real tudo é”. 'A Mosca' permanece tão impactante porque nos obriga a encarar essa verdade: não existe um 'eu' esperando além da carne, por mais que a tecnologia prometa o contrário.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Little White Lies





