Exatos dez anos se passaram desde que o maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima acendeu a pira olímpica no Maracanã, dando início aos Jogos Rio 2016. A data simbólica impõe um balanço inevitável sobre o legado do megaevento para a cidade. De um lado, transformações urbanas visíveis e uma nova dinâmica em áreas antes degradadas. De outro, a persistência de dívidas sociais e ambientais profundas, que a euforia olímpica não foi capaz de sanar.
A análise do que ficou, uma década depois, revela uma narrativa de duas cidades. Há o Rio do Porto Maravilha revitalizado, dos novos modais de transporte e de uma hotelaria modernizada. Mas há também o Rio das promessas adiadas: a segurança pública que não encontrou seu pódio, a Baía de Guanabara que segue esperando por sua redenção e uma mobilidade que, apesar dos avanços, ainda tropeça em seus próprios gargalos. O legado, como detalha uma reportagem da InfoMoney, é um mosaico de concreto e frustração.
O brilho do concreto
O maior e mais inegável trunfo do legado olímpico é a transformação da Região Portuária. O projeto Porto Maravilha, embora já concebido antes dos Jogos, usou o evento como um catalisador irrefreável. A demolição do Elevado da Perimetral, em 2013, abriu espaço para uma reurbanização que reconfigurou o Centro da cidade, com novos túneis, a implantação do VLT e a criação de um boulevard que se tornou um novo cartão-postal. Equipamentos culturais como o Museu do Amanhã e o Museu de Arte do Rio (MAR), inaugurados no ciclo olímpico, ancoraram a vocação turística e cultural da área.
Hoje, a região entra em uma nova fase, com a consolidação de um polo residencial. Segundo a InfoMoney, cerca de 3,4 mil apartamentos já foram entregues, trazendo o movimento de moradores que faltava para vitalizar a área para além do horário comercial e dos eventos esporádicos. A recuperação de antigos armazéns para feiras e negócios, como a Rio Innovation Week, e a redescoberta da Pequena África, com a valorização do Cais do Valongo, são heranças diretas desse movimento. Foi um investimento de cerca de R$ 10 bilhões que, de fato, reintegrou uma parte esquecida da cidade à sua rotina.
As dívidas estruturais
Se no Porto a herança é visível, em outras áreas a conta olímpica segue aberta. A segurança pública é o exemplo mais contundente. O programa das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), vendido em 2009 como a solução que garantiria a paz para os Jogos, ruiu. A expansão desordenada e a falta de recursos minaram o projeto, e a cidade mergulhou novamente em crises agudas, que culminaram em uma intervenção federal em 2018 e megaoperações com alta letalidade. A promessa de segurança se revelou uma estratégia de curto prazo para o evento, não uma política de Estado sustentável.
No campo ambiental, a frustração tem nome e endereço: Baía de Guanabara. A meta de despoluir suas águas, um compromisso central da candidatura, foi um fracasso retumbante. As regatas de vela ocorreram em meio à poluição visível. Uma década depois, a esperança foi transferida para a iniciativa privada, com a concessionária Águas do Rio prometendo tratar 90% do esgoto até 2033. É uma nova chance, mas que representa um adiamento de quase duas décadas da promessa original. Na mobilidade, o saldo é ambíguo. A Linha 4 do Metrô e os corredores de BRT foram avanços reais, mas insuficientes. A estação da Gávea, prometida para 2016, tem nova previsão para 2028, enquanto o crescimento da Barra da Tijuca, impulsionado pelos próprios Jogos, já saturou a infraestrutura viária recém-expandida.
O balanço de uma década sugere que megaeventos funcionam como catalisadores poderosos para projetos de infraestrutura com começo, meio e fim. Para desafios crônicos e estruturais, no entanto, eles oferecem, no máximo, um diagnóstico mais claro da complexidade do problema. O Rio de Janeiro de 2026 é uma cidade inegavelmente diferente daquela de 2016, mas as perguntas mais difíceis, sobre desigualdade, violência e sustentabilidade, permanecem sem resposta no pódio.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





