A publicação britânica Dezeen, uma das bússolas do design e da arquitetura contemporânea, divulgou a aguardada lista de finalistas para a edição de 2026 de seu prêmio anual. São 152 projetos distribuídos por 19 categorias e provenientes de 36 países, compondo um mosaico que vai de uma mesquita com teto perfurado no Catar a uma casa de campo com paredes de taipa de pilão no Reino Unido. A seleção inclui nomes consagrados como Herzog & de Meuron, Foster + Partners e Diller Scofidio + Renfro, além de um representante brasileiro, o escritório FGMF Arquitetos.
Mais do que uma simples competição, a lista do Dezeen Awards funciona como um barômetro do pensamento arquitetônico global. A diversidade de escalas e tipologias — de pequenas extensões residenciais a complexos centros cívicos e obras de infraestrutura — oferece um panorama rico das questões que mobilizam os profissionais hoje. A leitura que emerge é a de uma arquitetura cada vez mais atenta ao seu contexto, aos materiais locais e à responsabilidade de seu impacto, seja ele ambiental ou social. A presença de um projeto de São Paulo entre os finalistas sinaliza a inserção do Brasil nesse diálogo internacional.
A materialidade como manifesto
Um dos eixos mais evidentes que conectam os projetos selecionados é uma profunda investigação sobre a materialidade. O movimento sugere um distanciamento do modernismo genérico e uma busca por soluções que dialoguem com a cultura e a geografia locais. Exemplos notáveis incluem a "Rammed Earth House" no Reino Unido, do Tuckey Design Studio, que utiliza terra compactada não estabilizada, e o "Na-Eh Bamboo Market" na Tailândia, do Chat Architects, que explora o potencial estrutural e estético do bambu. Essa tendência não se limita a materiais naturais; ela se estende a uma releitura de técnicas e formas vernaculares, como visto nas casas de hóspedes com telhados de palha na Ucrânia, projetadas pelo YOD Group.
Outra vertente forte é a da requalificação e da herança arquitetônica. As categorias dedicadas a renovação, patrimônio e extensões mostram que o futuro da construção passa, inevitavelmente, pela reinvenção do que já existe. Projetos como a restauração do Grand Palais em Paris, por Chatillon Architectes, ou a intervenção no ambulatório sul do Coliseu em Roma, por Stefano Boeri Interiors, demonstram uma sofisticação em dialogar com a história sem cair no pastiche. Em um mundo de recursos finitos, a capacidade de adaptar e dar nova vida a estruturas preexistentes torna-se não apenas uma escolha estilística, mas uma decisão estratégica e sustentável.
A escala cívica e a conexão brasileira
Se por um lado a lista celebra a intimidade de projetos como o "Ibira Work" do escritório paulistano FGMF — finalista na categoria de pequenos espaços de trabalho —, por outro, ela destaca a ambição de obras de grande impacto cívico. Projetos como o novo mercado de peixes de Sydney, assinado por 3XN, ou o novo bairro governamental de Oslo, pelo Nordic Office of Architecture, reforçam o papel da arquitetura como ferramenta de construção de espaços públicos de qualidade e identidade coletiva. A própria inclusão de categorias como "Infraestrutura e transporte" e "Design urbano" atesta a compreensão do prêmio de que a arquitetura transcende o edifício isolado.
Para o Brasil, a nomeação do "Ibira Work" é um reconhecimento significativo. O projeto do FGMF, um escritório com trabalho consolidado em São Paulo, compete com estúdios de Paris, Nova York e Tóquio. Sua presença na categoria de pequenos escritórios ilustra como a inovação pode residir em soluções de escala contida, respondendo com inteligência às demandas do trabalho contemporâneo em contextos urbanos densos. É um sinal de que a produção arquitetônica brasileira de alta qualidade continua a dialogar de igual para igual no cenário internacional, mesmo fora dos mega-projetos.
A lista de finalistas do Dezeen Awards 2026 desenha, portanto, um retrato complexo e otimista da prática. Uma arquitetura que parece menos interessada em criar ícones universais e mais focada em responder a perguntas específicas com soluções inteligentes, contextuais e, acima de tudo, humanas. Os vencedores, que serão anunciados em novembro em Londres, certamente aprofundarão essa narrativa, mas a seleção por si só já oferece um vasto material para reflexão sobre os rumos do ambiente construído.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Dezeen




