O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um movimento calculado para se distanciar da origem de uma das figuras mais poderosas e controversas da República: o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Em entrevista a um podcast, Lula rebateu acusações do senador Flávio Bolsonaro, afirmando categoricamente: "Eu não era presidente quando o Alexandre de Moraes foi indicado para ministro da Suprema Corte".
A declaração é mais do que uma mera correção factual. É um gesto político que busca desarmar a narrativa da oposição que tenta atrelar Moraes ao PT. Ao mesmo tempo em que se isenta da "paternidade" da indicação, Lula endossa fortemente as ações do ministro, criando uma dinâmica complexa de apoio sem responsabilidade pela nomeação.
O Dono da Indicação
No centro da questão está a memória política. Lula fez questão de lembrar que Moraes foi uma escolha de Michel Temer, em 2017, um período em que o próprio PT era uma ferrenha oposição. A reportagem do Money Times aponta que, na tentativa de colocar seu adversário na berlinda, Lula cometeu um lapso ao sugerir que Flávio Bolsonaro, como senador, teria votado na indicação — o filho do ex-presidente só assumiu o cargo em 2019.
O erro factual de Lula é um detalhe menor diante da estratégia maior. Ao jogar a responsabilidade para o governo Temer, ele reposiciona Moraes no tabuleiro. O ministro não é um ativo do governo atual, mas um ator institucional cuja nomeação tem origem em outro campo político. Para o público, a mensagem é clara: os ataques a Moraes não podem ser diretamente creditados à conta do Palácio do Planalto.
Defensor, mas não Criador
O paradoxo da posição de Lula é que, ao mesmo tempo que nega a autoria, ele elogia a obra. O presidente defendeu que Moraes prestou "dois grandes serviços à democracia brasileira", citando sua condução do Tribunal Superior Eleitoral durante as eleições de 2022 e sua firmeza contra os atos golpistas de 8 de janeiro. Segundo Lula, a "bronca" da família Bolsonaro com o ministro vem daí, e não de outras questões.
Essa defesa enfática serve a um propósito duplo. Primeiro, sinaliza um alinhamento com as forças institucionais que garantiram a transição de poder e a estabilidade democrática. Segundo, isola a oposição, enquadrando suas críticas ao STF como uma retaliação de quem foi derrotado no campo eleitoral e judicial. Lula se beneficia da atuação de Moraes sem pagar o custo político de tê-lo nomeado.
O episódio ilustra a natureza fluida das alianças e narrativas na política brasileira. A discussão sobre a origem de uma indicação ao STF torna-se um campo de batalha para a legitimidade do presente. A manobra de Lula é um lembrete de que, em Brasília, a memória é seletiva e o crédito pelas ações, um ativo disputado.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





