O procurador-geral da República, Paulo Gonet, apresentou uma defesa de 37 páginas ao Conselho Superior do Ministério Público Federal (CSMPF) para se dissociar do banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. No documento, Gonet admite um encontro com Vorcaro em Londres em abril de 2024, mas nega veementemente qualquer relação de amizade ou interesse pessoal nos processos que miram o executivo.
A manifestação antecede a sessão do Conselho, marcada para 25 de junho, que analisará uma representação do partido Novo sobre um eventual impedimento de Gonet no caso. A suspeita de uma ligação indevida ganhou corpo com um relatório da Polícia Federal na Operação Compliance Zero, que expôs mensagens que, segundo a PF, sugerem uma proximidade preocupante. A questão que se impõe é sobre a fronteira, cada vez mais nebulosa, entre as interações sociais da elite do poder e a imparcialidade exigida por cargos de Estado.
A anatomia de uma defesa
A argumentação de Gonet busca desconstruir a narrativa de intimidade. Ele alega que mensagens onde teria expressado “saudade” de Vorcaro e o chamado de “máquina” foram mal interpretadas. Segundo o PGR, as expressões, parte de seu “estilo afetuoso”, eram dirigidas ao advogado Ciro Soares, que fazia a ponte nas conversas. “Não está no meu controle o que terceiros conversam entre si e como fazem uso de mensagens dirigidas a um deles”, argumenta Gonet, classificando as imputações como “descabidas e estapafúrdias”.
A leitura aqui é que a defesa se apoia em uma distinção fina entre intenção e percepção. Para Gonet, não houve quebra de decoro. No entanto, para a opinião pública e para os órgãos de controle, a mera existência de comunicações trianguladas com um investigado, reveladas por uma operação da PF, cria uma vulnerabilidade política e institucional. A defesa de Gonet é um esforço para reafirmar a primazia do fato sobre a aparência, uma batalha difícil no cenário político atual.
O palco de Londres
O encontro em Londres é apresentado por Gonet como um evento de alta patente, frequentado por ministros do STF, pelo então ministro da Justiça e pelo diretor-geral da PF, entre outras autoridades. Ao listar os presentes, o PGR normaliza sua presença e, por extensão, a de Vorcaro, que circulava no mesmo ambiente. Gonet afirma que sequer conhecia o banqueiro até então e que, à época, não havia conhecimento público sobre atividades ilícitas do Banco Master.
Este cenário da “República em Londres” ilustra uma característica estrutural do poder em Brasília: a porosidade entre o público e o privado. A facilidade com que um empresário, posteriormente alvo de investigações, transita entre as mais altas autoridades do sistema de Justiça levanta questões sobre acesso e influência que transcendem a conduta individual de Gonet. O problema se torna menos a amizade que o PGR nega e mais a promiscuidade de um sistema onde tais encontros são rotineiros.
Gonet informou ao Conselho que se considera “juridicamente plenamente apto” para continuar atuando nos casos envolvendo o Banco Master. A decisão do colegiado não será apenas sobre a suspeição de um procurador-geral, mas também um sinal sobre onde se traça a linha entre a articulação de poder e a necessária distância que o cargo exige. O episódio é um lembrete de que, para certas posições, a percepção de isenção é tão crucial quanto a própria isenção.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





