“Queremos que políticos decidam como a história é ensinada e compreendida?”. A pergunta, lançada por Kim Sajet em uma entrevista recente ao The New York Times, não é retórica. É o epicentro de uma batalha cultural que se desenrola nos corredores de museus e instituições de memória. Sajet, que até o ano passado dirigia a National Portrait Gallery, parte do complexo Smithsonian em Washington, e hoje comanda o Milwaukee Art Museum, fala com a autoridade de quem esteve na linha de frente. Sua gestão foi alvo de uma tentativa de demissão pela administração Trump, e a pressão sobre a independência do Smithsonian apenas se intensificou desde então.

O dilema que Sajet articula não é uma abstração americana. Ele se materializa de forma contundente em outros lugares, como no Canadian Museum for Human Rights. Ali, a Asper Foundation, uma das principais financiadoras do museu, anunciou o corte de seu apoio devido à exposição “Palestine Uprooted: Nakba Past and Present”. A família doadora criticou a mostra por uma suposta falta de contexto sobre a fundação de Israel. O museu, por sua vez, defendeu a exibição como parte de seu mandato de direitos humanos. O episódio expõe a fratura mais sensível do mundo da arte e da cultura: a linha tênue entre mecenato e influência, entre apoio financeiro e independência curatorial.

A trincheira da curadoria

A defesa de Sajet vai além do Smithsonian. Ela advoga pela autoridade acadêmica e pela integridade das instituições cuja missão é pesquisar e apresentar o passado. Quando o poder político ou econômico tenta ditar a narrativa, o que está em jogo não é apenas uma exposição ou a reputação de um diretor, mas a própria função social do museu como um espaço de reflexão crítica, por vezes desconfortável. “É esse o papel do governo — controlar o que aprendemos sobre o passado e sobre nós mesmos? Eu sugiro que não”, afirma Sajet.

O debate transcende a polarização partidária. Ele toca na questão fundamental de quem detém a legitimidade para contar histórias, especialmente as mais contestadas. A disputa pela memória é, em essência, uma disputa pelo presente e pelo futuro. A pergunta de Kim Sajet, portanto, permanece no ar, ecoando muito além dos salões do Smithsonian: se não forem os curadores e historiadores, com seu rigor e método, quem definirá o que lembramos e o que esquecemos?

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews