A Retro Biosciences, startup de longevidade que conta com Sam Altman entre seus investidores, está recalibrando a rota de seu principal projeto: uma pílula experimental contra o Alzheimer. A empresa anunciou que irá aumentar a dosagem de seu composto, o RTR-242, nos ensaios clínicos de fase 1 que ocorrem na Austrália. A razão é um paradoxo comum no desenvolvimento de fármacos: a ausência de efeitos colaterais.

Nos testes iniciais com voluntários saudáveis, a droga se mostrou segura a ponto de não gerar reações adversas, nem mesmo as mais leves. Segundo reportagem do Business Insider, essa segurança exemplar se tornou um obstáculo. Sem sinais como uma simples dor de cabeça, os cientistas não conseguem determinar o limite superior da janela terapêutica — a dose potente o suficiente para gerar um efeito biológico, mas ainda segura. Para resolver o impasse, a Retro vai adicionar mais dois grupos ao estudo, aumentando o número de participantes de 76 para 108.

O paradoxo da segurança

"É uma espécie de bênção e maldição", afirmou o CEO da Retro, Joe Betts-LaCroix, à publicação. A busca por "ao menos uma dor de cabeça" não é um desejo por toxicidade, mas por um marcador que indique que a droga está biologicamente ativa no organismo. O desafio ilustra a complexidade de traduzir uma tese científica em um tratamento viável. A aposta da Retro é que o RTR-242 consiga reativar a autofagia, o processo de limpeza e reciclagem celular que se torna menos eficiente com a idade e em doenças neurodegenerativas.

A pílula foi desenhada para restaurar a função dos lisossomos, as "usinas de reciclagem" das células. A ideia é que, ao revitalizar esse mecanismo, o cérebro possa eliminar as proteínas e resíduos que se acumulam e que são uma marca registrada do Alzheimer. É uma abordagem que foge das linhas de pesquisa mais tradicionais — e que colecionam fracassos —, focadas na proteína beta-amiloide.

Uma corrida com muitos competidores

O movimento da Retro a coloca, em tese, à frente na corrida pela longevidade travada no Vale do Silício. Outros projetos com apoio de bilionários, como a Altos Labs, de Jeff Bezos, e a New Limit, do Founders Fund, ainda não anunciaram ensaios clínicos em humanos. No entanto, a Retro não está sozinha na sua tese. Outras empresas, como Lysoway Therapeutics e Vanqua Bio, também exploram os lisossomos como alvo terapêutico para doenças como Parkinson e Alzheimer, com alguns resultados promissores em fases iniciais.

O caminho, contudo, é longo e incerto. Como aponta um especialista ouvido pela reportagem, o verdadeiro teste virá na fase 2, quando o RTR-242 for administrado a pacientes mais velhos que de fato sofrem de declínio cognitivo. A segurança em voluntários jovens e saudáveis é um primeiro passo necessário, mas não garante eficácia na população-alvo. Para Betts-LaCroix, que perdeu o pai para o Alzheimer, a busca por uma "nova perspectiva" terapêutica é também pessoal.

A aposta é que uma abordagem fundamental, focada na biologia do envelhecimento celular, tenha mais chances de sucesso onde tantas outras falharam. O mercado observa se a estratégia de testar os limites da dosagem trará os dados necessários para que a Retro Biosciences avance para o próximo e decisivo estágio.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider