A avó da escritora Emily Doyle sofre de demência. Sua percepção da realidade, descreve Doyle, não é instável, mas 'desvinculada do tempo e do espaço'. Ao olhar para a neta, ela vê também a filha. Lembra que a neta é casada e, minutos depois, pergunta quando será o casamento. Ela toca a mão da neta e recua, assustada com a pele 'tão fria'. Logo em seguida, tenta tocá-la novamente. A cena, íntima e desorientadora, serve como ponto de partida para uma profunda investigação sobre os limites da ficção.

Em um ensaio para a publicação literária Lit Hub, Doyle usa suas memórias para questionar um dos pilares da arte narrativa: o realismo. Se a literatura se propõe a refletir a vida, que vida é essa? A experiência de sua avó, de um tio que narrou o próprio nascimento durante um funeral, ou de uma líder de grupo de estudos bíblicos que via demônios em eventos mundanos, não contam? A tese de Doyle é que a definição de 'realismo' como uma 'simpatia com a vida ordinária' opera como uma tirania sutil, que rebaixa ou simplesmente ignora vastos territórios da experiência humana.

A fronteira porosa do real

A vida de Doyle, desde cedo, foi povoada por pessoas com uma relação, no mínimo, flexível com o mundo consensual. O diretor de sua escola cristã atribuía ataques terroristas e o preço da gasolina a uma 'guerra espiritual invisível'. Aos treze anos, a própria Doyle temia ser perseguida por um demônio, uma suspeita que sua mentora religiosa não descartou, mas combateu com orações. Essas não são anedotas exóticas, argumenta ela, mas exemplos de como a mente humana pode se desancorar por fervor religioso, pelo envelhecimento ou por inúmeros outros fatores.

Essa fricção tornou-se um problema criativo quando Doyle escreveu o conto 'New Mercies'. Na história, ela busca explorar a demência por dentro e por fora, usando três perspectivas que se sobrepõem. As duas primeiras, de uma adolescente e de uma mulher que cuida de sua parceira com a condição, aderem às convenções do realismo, ainda que suas percepções sejam distorcidas pela culpa religiosa e pelo desespero. É na terceira perspectiva, a da mulher com demência, que o gênero se desfaz. O que era alucinação para as outras se torna verdade factual para ela. Ao se comprometer com a experiência interna da personagem, o 'verniz do realismo' se desintegra, não por uma mudança de técnica, mas pela fidelidade àquela percepção particular.

Kafka e a instabilidade da percepção

Para ilustrar a arbitrariedade dessa fronteira, Doyle recorre a um dos textos mais canônicos e, ao mesmo tempo, mais estranhos da literatura ocidental: 'A Metamorfose', de Franz Kafka. A obra é, simultaneamente, um conto fantástico sobre um homem que se transforma num inseto gigante e uma representação precisa de uma pessoa com uma doença mental incompreendida pela família. Kafka, segundo Doyle, expõe como a definição de realismo se desfaz em suas bordas.

A análise se concentra na cena em que Gregor Samsa, já em sua forma de inseto, se arrasta para ouvir a irmã tocar violino. 'Ninguém o notou', escreve Kafka. A frase, aponta Doyle, pode se aplicar tanto a um inseto quanto a um humano que se sente como um, escondido nas sombras. A ambiguidade atinge o clímax com a pergunta de Gregor: 'Seria ele um animal se a música o cativava tanto?'. O leitor é forçado a sentar-se no desconforto de não saber, ou de saber duas coisas opostas ao mesmo tempo. Sem esse compromisso com a experiência distorcida de Gregor, a obra perderia sua potência.

As categorias de realismo e surrealismo, reconhece Doyle, são úteis para conversar sobre literatura e, principalmente, para vendê-la. Contudo, a preocupação é o que se perde nesse processo. Ao rotular uma experiência como 'real' e outra como 'surreal', inevitavelmente se rebaixa a segunda. A distinção, no fim, parece oferecer mais conforto do que verdade, uma maneira de alguns afirmarem que suas mentes estão estáveis e contidas. A questão que o ensaio deixa no ar é se a função da grande literatura é validar essa contenção ou, ao contrário, desafiar as próprias amarras do que consideramos real.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Lit Hub