O Exército dos Estados Unidos está em uma corrida para modernizar sua doutrina de combate, e o epicentro dessa transformação é um ambicioso sistema de comando e controle digital. Em um exercício de larga escala no deserto da Califórnia, a nova plataforma, batizada de Next Generation Command and Control (NGC2), foi posta à prova, revelando tanto o potencial de uma guerra definida por software quanto suas fragilidades mais básicas.

Segundo reportagem do Business Insider, o sistema, que conta com a participação de gigantes da nova indústria de defesa como a Anduril, demonstrou acelerar o planejamento de missões e melhorar a comunicação entre unidades dispersas. Contudo, os testes também expuseram o que pode ser seu calcanhar de Aquiles: falhas de conexão e lacunas na integração de equipamentos. A aposta de quase US$ 4 bilhões do Pentágono depende não apenas de algoritmos sofisticados, mas de uma premissa muito mais fundamental: a de que o sinal não vai cair no meio do combate.

A visão do software-defined warfare

O NGC2 representa uma ruptura com os sistemas militares legados, tradicionalmente operados em silos e com pouca interoperabilidade. A nova arquitetura é construída sobre uma camada de dados unificada, que alimenta uma série de aplicativos dedicados a funções críticas: inteligência sobre posições inimigas, logística de suprimentos e munições, coordenação de ataques e gestão do espaço aéreo. Capacidades de inteligência artificial são usadas para processar dados e analisar planos de batalha.

O objetivo é criar uma consciência situacional completa e em tempo real, conectando cada soldado, veículo, drone e arma em uma única rede. Nos testes, os benefícios dessa abordagem foram evidentes. Comandantes em campo relataram uma capacidade de planejar missões de forma “muito mais eficiente e rápida”, segundo o tenente-coronel Shawn Scott. A redundância de meios de comunicação — rádio, 5G e satélite — também conferiu maior resiliência contra tentativas simuladas de interferência eletrônica. O sistema parece entregar a promessa de agilidade e tomada de decisão acelerada, o que no jargão militar significa “fechar a cadeia de abate” mais rapidamente.

O calcanhar de Aquiles da conexão

No entanto, a visão de um campo de batalha totalmente conectado esbarrou na dura realidade da física. Durante o exercício, múltiplos soldados reportaram problemas de conexão que tornavam partes do sistema simplesmente inutilizáveis. Em um episódio revelador, um sargento tentando usar seu dispositivo móvel para localizar forças amigas durante um assalto urbano simulado constatou que, sem um sinal de WiFi estável, o aplicativo era “letra morta”. Mapas não carregavam, a comunicação por rádio sofria com estática e a localização de unidades no mapa falhava.

Essas falhas não são meros bugs a serem corrigidos, mas apontam para o desafio central do projeto. A eficácia do NGC2 depende de uma rede robusta, capaz de operar sob condições extremas e, crucialmente, sob ataque eletrônico projetado especificamente para derrubá-la. Além da conectividade, a integração de hardware provou ser outro obstáculo. Enquanto alguns drones, como o GhostX da Anduril, estavam plugados à rede, outros modelos em teste ainda não cumpriam os requisitos de interoperabilidade e cibersegurança do Exército. O objetivo de ter cada ativo como um “ponto azul” no mapa digital ainda parece distante.

A liderança militar parece ciente dos desafios, tratando os problemas como dados valiosos para o desenvolvimento iterativo do sistema. O orçamento solicitado para o próximo ano fiscal, um salto de US$ 3 bilhões para quase US$ 4 bilhões, sinaliza que o Pentágono está disposto a pagar para ver. A velocidade de desenvolvimento do software tem sido elogiada, mas o sucesso da empreitada não será medido pela sofisticação dos aplicativos, e sim pela capacidade de manter uma conexão estável quando ela for mais necessária. A grande questão é se a infraestrutura de rede consegue evoluir no mesmo ritmo frenético do software que ela precisa suportar.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider