Imagine um cofre com mais de US$ 535 bilhões. Agora, imagine que a lei exige que apenas 5% desse valor seja usado a cada ano para o fim a que se destina. Essa não é uma metáfora, mas a realidade das 50 maiores fundações privadas americanas, cuja obrigação de distribuir seus recursos permanece congelada numa norma de 1969.
O que foi desenhado como um piso de segurança para garantir o fluxo de doações tornou-se, na prática, um teto confortável. Uma reportagem da revista Fortune explora o segredo mais bem guardado da filantropia: quanto maior o capital, menor a urgência em distribuí-lo. A leitura aqui é que o sistema foi construído para priorizar a perpetuidade da estrutura, não a velocidade do impacto.
A matemática da perpetuidade
A regra dos 5% é a peça central de um mecanismo que favorece a paciência em detrimento do ritmo. Pesquisas citadas pela Fortune indicam que 17 das 40 maiores fundações dos EUA distribuíram, em média, menos de 5% de seus ativos ao longo de cinco anos. O incentivo implícito não é maximizar a doação, mas garantir que o capital principal se perpetue, rendendo juros que podem, por si sós, cobrir a distribuição mínima.
Isso expõe uma diferença fundamental: fundação e caridade não são sinônimos. A primeira é uma estrutura de gestão de ativos; a segunda, um resultado. A doação direta transfere o capital e o poder de decisão. A criação de uma fundação familiar mantém ambos sob controle, muitas vezes por décadas. A regra dos 5% garante apenas a sobrevivência da estrutura, não a efetividade da caridade.
O fim dos outros incentivos
O debate ganha nova urgência porque outras alavancas que empurravam o capital para a filantropia perderam força. Recentes alterações na legislação tributária americana, como o “One Big Beautiful Bill Act”, reduziram os benefícios fiscais para doações de indivíduos e corporações. Com isso, a obrigação de desembolso anual de 5% deixou de ser uma salvaguarda entre várias para se tornar o único mecanismo de política pública que ainda dita o ritmo do dinheiro.
A assimetria de poder se torna evidente. Organizações sem fins lucrativos são rotineiramente cobradas para demonstrar impacto com anos de antecedência para conseguir financiamento. Seus doadores, contudo, raramente são questionados sobre a velocidade com que liberam os próprios recursos. O movimento da MacArthur Foundation, que elevou voluntariamente seu desembolso, ganhou as manchetes justamente por sua raridade.
A maior transferência de riqueza da história está em curso. A questão que permanece não é se os herdeiros dessas fortunas são bem-intencionados, mas se a estrutura que herdam — com suas regras de meio século — foi desenhada para o mundo que precisa de ajuda hoje ou para garantir que a fundação ainda exista em 2075. A filantropia foi feita para ser permanente, ou para resolver problemas?
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





