A inteligência artificial pode representar um salto tecnológico comparável à invenção do refrigerador, que tornou obsoleta a indústria de blocos de gelo. A tecnologia já otimiza tarefas diárias e promete avanços em saúde, transportes e na própria natureza do trabalho. Mas, para David Booth, fundador e chairman da gestora Dimensional Fund Advisors, uma coisa ela não fará: mudar a forma como os preços são formados nos mercados de ações e títulos.

Em um comentário publicado pela revista Fortune, Booth, uma figura influente na indústria de gestão de ativos, contesta a euforia em torno do uso de IA para investimentos. A tese central é que a especulação sobre como a tecnologia pode ajudar a “escolher ações” ou identificar os próximos gigantes do setor ignora o funcionamento fundamental dos mercados públicos: eles são a mais eficiente máquina de processamento de informações que existe, refletindo o conhecimento coletivo de milhões de participantes em tempo real.

A miragem da vantagem informacional

A crença de que um agente de IA pode vencer o mercado, segundo Booth, pressupõe que ele tenha acesso a informações privilegiadas sobre quais ações estão mal precificadas. Esta ideia, no entanto, esbarra na teoria dos mercados eficientes, um conceito que o próprio Booth ajudou a popularizar a partir de seus estudos na Universidade de Chicago. Se o mercado já reflete toda a informação disponível, uma nova ferramenta que simplesmente acelera a coleta de dados não cria uma vantagem sustentável, pois seus benefícios seriam rapidamente disseminados entre todos os investidores.

O resultado de usar IA para comprar e vender ações, na visão do gestor, seria apenas adicionar “ansiedade e ruído aleatório” à estratégia do investidor individual. O desafio não é acumular mais informação, mas lidar com um futuro que é, por definição, incerto. Nenhuma IA pode prever o futuro de forma consistente, e é irrealista acreditar que um modelo específico superará sistematicamente toda a concorrência no longo prazo.

A lição da bolha ponto-com

Booth também adverte contra a tentação de concentrar todo o portfólio nas “ações de IA”. Ele traça um paralelo com a bolha da internet no final dos anos 1990. Uma análise das 20 principais ações de telecomunicações de 1999 mostra que, 25 anos depois, apenas uma sobreviveu com sua estrutura corporativa original. Muitas das estrelas da época, como Lucent Technologies, desapareceram ou foram absorvidas. Tentar adivinhar os vencedores da revolução da IA hoje é uma aposta igualmente arriscada.

A história sugere que os maiores beneficiários de uma onda tecnológica nem sempre são os mais óbvios — como Levi Strauss se tornou uma das grandes vencedoras da Corrida do Ouro. A questão, para Booth, não é tentar escolher um vencedor, o que pode facilmente transformá-lo em um grande perdedor. A boa notícia é que não é preciso apostar para ter um bom desempenho.

Ao deter um portfólio amplamente diversificado, o investidor participa do futuro, seja ele qual for, em vez de apostar em uma visão específica dele. Os mercados públicos financiam milhares de ideias concorrentes. A estratégia de comprar e manter uma carteira diversificada permite que investidores comuns se beneficiem da inovação em geral, sem correr o risco da superconcentração. A IA pode, de fato, criar um refrigerador melhor, mas é improvável que o ajude a bater o mercado.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune