Em entrevista recente, o executivo Steve Stoute detalhou a tese que o levou a abandonar a indústria fonográfica aos 29 anos para atuar no mercado publicitário e, posteriormente, fundar a plataforma United Masters. A premissa central de sua trajetória é clara: a cultura urbana dita o consumo global, mas os criadores dessa cultura historicamente falham em capturar o valor financeiro gerado por sua influência.
A miopia demográfica e o valor da conversão
Stoute argumenta que, no final dos anos 1990, o modelo de negócios das gravadoras premiava a mediocridade ao forçar a venda de CDs por US$ 16,99 quando o consumidor desejava apenas um single. Paralelamente, a publicidade operava sob uma lógica arcaica, segmentando campanhas por demografias raciais rígidas em vez de mirar em valores culturais compartilhados.
O ponto de virada ocorreu durante seu período na Sony, na produção da trilha sonora do filme Homens de Preto. Stoute observou que os óculos Ray-Ban usados por Will Smith no videoclipe venderam milhões de unidades, sem que a gravadora ou o artista fossem remunerados pela conversão direta. Para contexto editorial, a BrazilValley aponta que essa assimetria histórica na captura de valor foi o catalisador que, anos depois, impulsionou a ascensão de contratos de equity e joint ventures entre conglomerados e celebridades, substituindo o mero patrocínio passivo.
Na Reebok, Stoute aplicou essa visão ao fechar os primeiros contratos de licenciamento de tênis com artistas que não eram atletas, como Jay-Z e 50 Cent, reconhecendo que o calçado havia se tornado um item de moda focado em estilo, não em performance esportiva. O executivo também relata ter oferecido um cheque de US$ 10 milhões a LeBron James, ainda no ensino médio, apenas para que ele não ouvisse propostas de concorrentes. O jogador recusou a oferta para apostar no próprio valor de mercado — uma decisão que Stoute cita como um marco de autoconfiança geracional.
Propriedade intelectual e a guerra pelo CRM
A assimetria de poder evoluiu da venda física para a gestão de dados na era do streaming. Com a fundação da United Masters, Stoute buscou inverter a economia tradicional da música, permitindo que os artistas mantivessem a propriedade de sua obra. Ele compara os contratos tradicionais de gravação a um investidor de risco que exige a compra integral da propriedade intelectual de um fundador em troca de um cheque inicial.
Stoute afirma que se os artistas tivessem acesso direto aos dados de Customer Relationship Management (CRM) — sabendo exatamente quem são seus ouvintes mais engajados — as gravadoras se tornariam obsoletas. Ele argumenta que os selos musicais falharam deliberadamente em negociar o acesso a esses dados de usuários com plataformas como Spotify e Apple, preferindo manter os músicos dependentes do sistema. Como exemplo histórico dessa relação predatória, o executivo cita a decisão de Prince de escrever a palavra "slave" (escravo) no rosto para protestar contra o controle da Warner sobre seu próprio nome.
A ausência do monopólio de distribuição, antes restrito às rádios e canais como a MTV, redefiniu o mercado. Stoute aponta que a transição de um formato de imposição verticalizada para a construção de audiência orgânica permite que criadores independentes construam negócios altamente rentáveis sem ceder direitos a intermediários.
Em sua conclusão, Stoute alerta sobre uma distorção contemporânea: nos últimos 20 anos, fama e talento entraram em rota de colisão. A fama passou a ser incentivada independentemente da habilidade técnica, criando um ecossistema onde a busca por atenção supera a excelência. Para o executivo, o futuro pertence aos criadores que operam como pequenas e médias empresas, retendo o controle absoluto sobre seus dados, sua distribuição e o relacionamento direto com a audiência.
Fonte · Brazil Valley | Music




