A SE Ventures, braço de capital de risco de US$ 1 bilhão da Schneider Electric, está apostando que a próxima grande transformação tecnológica será definida menos por linhas de código e mais pela infraestrutura física que a sustenta. Em uma entrevista recente ao Crunchbase News, Amit Chaturvedy, que lidera a SE Ventures, articulou uma tese de investimento que desvia o foco dos modelos de linguagem para os data centers, redes elétricas e robôs que os tornam possíveis.

A leitura é que, enquanto o debate público se concentra nos avanços de software em inteligência artificial, o verdadeiro gargalo — e, portanto, a oportunidade de investimento mais estratégica — migrou para o mundo físico. A demanda computacional sem precedentes da IA está criando um novo ciclo de investimento industrial, forçando uma reavaliação fundamental sobre energia, automação e a própria concepção das fábricas e centros de dados. Para a Schneider, uma empresa que evoluiu do aço no século 19 para a automação no século 21, este é um território familiar.

O gargalo energético da IA

O ponto central do argumento de Chaturvedy é a energia. A capacidade de treinar e operar modelos de IA em larga escala não é limitada pelo talento em software, mas pela disponibilidade de energia e pela infraestrutura para entregá-la. “Hoje, o recurso escasso em todo este espaço é a capacidade de construir: prédios, imóveis, energia, e equipamentos de eletrificação”, afirmou ele na entrevista. A demanda energética da IA, segundo ele, é ordens de magnitude maior do que a gerada pela eletrificação de veículos, colocando uma pressão inédita sobre redes elétricas já sobrecarregadas.

Essa restrição física cria três verticais de investimento claras para a SE Ventures. A primeira é a própria infraestrutura de data centers, tanto em sua expansão quanto em sua eficiência. A segunda é a resiliência da rede elétrica, investindo em tecnologias que ajudem a gerenciar a intermitência e a crescente demanda. A terceira é a intersecção entre a geração de energia, especialmente renovável, e o armazenamento em baterias (BESS), um componente crítico para garantir a estabilidade do sistema. A tese é que o crescimento da IA está intrinsecamente ligado à modernização de toda a cadeia energética.

A reindustrialização encontra a robótica

O segundo pilar da estratégia da SE Ventures é o impacto da IA na automação industrial, um movimento que se alinha às pressões geopolíticas por reindustrialização no Ocidente. Chaturvedy argumenta que, para países como os Estados Unidos e nações europeias, a reindustrialização não é uma escolha, mas uma necessidade. No entanto, o envelhecimento da força de trabalho industrial e os custos locais tornam inviável um modelo de manufatura tradicional. A solução, segundo ele, está na automação inteligente.

Aqui, a IA generativa atua como um catalisador. Modelos de propósito geral permitem que o mesmo hardware robótico execute múltiplas tarefas complexas, algo antes impossível. Empresas do portfólio como a Skild AI são vistas como precursoras de um futuro onde a cognição na ponta (edge) habilita fábricas com operação autônoma, as chamadas “lights-out manufacturing facilities”. Chaturvedy vai além, sugerindo que a IA será um “grande equalizador”, transformando cada trabalhador de chão de fábrica em um “trabalhador do conhecimento”, munido de ferramentas de IA que amplificam sua capacidade e produtividade. Essa visão não busca replicar modelos de manufatura de baixo custo, mas criar um novo paradigma de produção de alto valor agregado.

O ciclo de investimento, portanto, não é homogêneo. Começa com a urgência dos data centers, onde o capital já flui abundantemente. Nos próximos três a dez anos, no entanto, a expectativa é que essa onda se espalhe para outras indústrias, à medida que seus ciclos de investimento se renovam. Novas fábricas já nascerão com um nível de automação e produtividade nativo da IA, tornando a atualização uma questão de sobrevivência competitiva. A conversa sobre o futuro da inteligência artificial está, silenciosamente, se tornando uma conversa sobre a física do poder e da produção.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Crunchbase News