A estabilidade da rede elétrica do Reino Unido depende, cada vez mais, da boa vontade de seus vizinhos continentais. Durante uma recente onda de calor com pouco vento, um quinto da eletricidade consumida na Grã-Bretanha precisou ser importada. Só os cabos vindos da França foram responsáveis por 11% da demanda, mais que o dobro da geração de todo o parque eólico britânico no momento, segundo análise do jornal The Guardian.

O episódio expõe a tensão no coração da transição energética europeia. A interconexão entre as redes nacionais foi desenhada para otimizar o uso de fontes renováveis intermitentes, permitindo que um país com excesso de energia solar, por exemplo, a exporte para outro com déficit. A lógica é tecnicamente impecável, mas politicamente frágil. Ela assume um nível de cooperação que pode não resistir a crises sistêmicas, como eventos climáticos extremos ou instabilidade geopolítica.

A faca de dois gumes da interconexão

A arquitetura de interconectores elétricos na Europa é uma maravilha da engenharia e da colaboração. São sete cabos de alta tensão ligando o Reino Unido ao continente, funcionando como uma apólice de seguro contra apagões e picos de preço. Quando a geração interna falha — seja por falta de sol, vento ou problemas em usinas —, a importação imediata garante que as luzes permaneçam acesas. Este sistema é fundamental para acomodar a intermitência das energias renováveis, pilar da descarbonização.

O problema surge quando a crise é compartilhada. Uma onda de calor que afeta o Reino Unido provavelmente atinge também a França, elevando a demanda por ar-condicionado em ambos os lados do Canal da Mancha. Nesse cenário, a pressão política sobre o governo francês para priorizar o abastecimento doméstico em detrimento das exportações para o vizinho torna-se imensa. A solução técnica para a estabilidade da rede se converte, assim, em um ponto de alavancagem geopolítica.

O fantasma do nacionalismo energético

A dependência cria uma vulnerabilidade nova, batizada de "nacionalismo energético". Trata-se do risco de um país restringir ou cortar exportações de energia para proteger seus próprios consumidores, ignorando contratos e acordos de cooperação. Embora o sistema tenha funcionado durante o recente evento, pagando preços elevados pela energia importada, ele revelou o quão exposto o Reino Unido está a decisões tomadas em Paris, Bruxelas ou Oslo.

O debate deixa de ser apenas sobre capacidade de geração e passa a ser sobre segurança de fornecimento em um contexto de recursos escassos e disputados. A questão para os gestores da rede britânica não é mais apenas "teremos energia suficiente?", mas sim "nossos vizinhos estarão dispostos a nos vender a energia de que eles mesmos precisam?".

A integração que deveria simbolizar a força coletiva da Europa pode se tornar seu calcanhar de Aquiles. Os cabos que transportam elétrons não distinguem fronteiras, mas os governos que os controlam, sim. A recente onda de calor foi um alerta: a segurança energética, no século 21, é tão dependente de diplomatas quanto de engenheiros.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Guardian UK Business