No verão de 2024, em Roma, Tom Rockmore subiu ao palco para sua última apresentação filosófica. O tema, uma ponte entre o pensador napolitano Giambattista Vico e Karl Marx, foi descrito por seus pares como um “canto do cisne” adequado. Pouco depois, em 6 de agosto, Rockmore faleceu pacificamente em Nice, na França, onde se aposentara. A cena final em Roma, no entanto, encapsula a essência de sua carreira: a busca incansável por conexões, por linhagens intelectuais que outros não viam.

Rockmore dedicou sua vida a esse ofício de construtor de pontes. Seu trabalho mais seminal, consolidado no livro Fichte, Marx, and the German Philosophical Tradition (1980), resgatou as raízes do marxismo no idealismo alemão, um território então pouco explorado. Para ele, a filosofia não era um museu de ideias, mas um canteiro de obras. Seu método era construtivista, usando os blocos de Fichte e Hegel para erguer novas estruturas epistemológicas. Com mais de 25 livros publicados, ele se moveu com fluidez entre a filosofia antiga, a Escola de Frankfurt e a fenomenologia, frequentemente abordando temas anos antes de se tornarem populares na academia.

Essa capacidade de antecipação talvez explique seu movimento mais surpreendente. Após uma longa e dedicada carreira na Duquesne University, Rockmore mudou-se para a China em 2007, para lecionar na prestigiosa Universidade de Pequim. Em um momento em que o centro de gravidade do mundo começava a se deslocar para o Oriente, ele fez o mesmo com sua vida intelectual. Não foi um exílio, mas uma aposta no futuro do pensamento.

Sua trajetória, que começou em Vanderbilt e passou por Yale, terminou simbolicamente na China, como professor emérito. Longe das cátedras e dos debates acalorados sobre Heidegger ou Hegel, seu fim foi sereno, após um almoço em família. Um fecho terreno para uma vida dedicada a construir diálogos entre ideias, épocas e, finalmente, continentes.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Daily Nous