A recente conferência de céticos, a CSICon, expôs uma tensão fundamental: o movimento que se consolidou desmentindo alegações paranormais e pseudociências clássicas agora luta para se manter relevante na era da desinformação algorítmica. Segundo reportagem da Fast Company, o encontro do Committee for Skeptical Inquiry (CSI) revela uma comunidade de pensadores às voltas com um inimigo que não opera mais nas franjas da sociedade, mas no centro do feed de notícias de todos.
O encontro anual, que reúne cientistas, educadores e pensadores obcecados por evidências, serve como um termômetro para os desafios do pensamento crítico. A tese que emerge é que o ceticismo tradicional, focado em alegações extraordinárias, pode não ter as ferramentas adequadas para o campo de batalha informacional de hoje.
Do Pé Grande ao feed do Instagram
O ceticismo organizado, como retratado no evento, é um universo povoado por uma demografia específica: majoritariamente homens, brancos e com mais de 40 anos. Seu campo de batalha clássico eram os "mistérios": médiuns, curas milagrosas, Pé Grande e OVNIs. Eram quebra-cabeças a serem resolvidos com método científico, expondo a fraude ou o autoengano para um público que ainda confiava em certas fontes de autoridade.
Hoje, o desafio é outro. A desinformação não vem de um charlatão específico, mas de "mães que 'fazem a própria pesquisa' no Instagram" ou de adolescentes que caem em teorias da conspiração no TikTok, como aponta a reportagem. A queda drástica na confiança em instituições como a imprensa — um estudo citado aponta que 70% dos adultos americanos desconfiam de jornais, TV e rádio — removeu os "guardiões" da informação, deixando o campo aberto para que qualquer ideia se espalhe com velocidade viral.
A questão que paira sobre o movimento não é apenas de tática, mas de identidade. As ferramentas usadas para desbancar um vidente são eficazes contra um vídeo gerado por IA ou uma corrente de desinformação sobre saúde que se apoia em vulnerabilidades emocionais e desconfiança sistêmica? O ceticismo sempre se baseou na premissa de que a verdade, embora difícil, é alcançável através da razão. Na era da pós-verdade e da realidade sintética, a sobrevivência do movimento depende de sua capacidade de adaptar seu arsenal intelectual para uma guerra onde o adversário não é mais o extraordinário, mas o viral.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fast Company





