A Andreessen Horowitz (a16z), uma das mais influentes gestoras de venture capital do mundo, publicou um artigo que rema contra a maré do consenso tecnológico atual: a “enshittification” — a ideia de que plataformas digitais se deterioram com o tempo para extrair mais valor — não é real. Pelo contrário, as pessoas amam as redes sociais e as usam mais do que nunca.
A tese, defendida pelo professor da NYU Ruby Thelot em um ensaio para a gestora, é que a crítica generalizada vem de um “narcisismo de plataforma”. Segundo ele, usuários mais velhos, como os “millennials geriátricos”, queixam-se que o Facebook piorou, mas a verdade é que eles envelheceram e a plataforma evoluiu para um público mais jovem. A leitura aqui é que o argumento da a16z, uma grande investidora em empresas como o próprio Facebook, tenta reformular o debate, deslocando a culpa da arquitetura do produto para a psicologia do usuário.
O espelho do narcisista
O argumento central de Thelot é que a percepção de piora é uma falha de autoavaliação. “Talvez a razão pela qual a plataforma parece pior é porque sua vida mudou”, escreve. “Por que diabos uma pessoa de cinquenta e cinco anos estaria assistindo Reels? Vá cuidar dos seus filhos”. Para sustentar a ideia, ele aponta para o crescimento contínuo de usuários e receita de gigantes como Meta e TikTok. O fato é que as plataformas são, de fato, massivamente populares.
O ensaio também se apoia em dados do American Customer Satisfaction Index (ACSI), que mostrou um leve aumento de 1% na satisfação geral com redes sociais, atingindo uma nota de 75 em 100. Se a satisfação está subindo, argumenta Thelot, o conceito de “enshittification” é falso. A narrativa é sedutora: o problema não está no produto, mas na sua incapacidade de se adaptar a ele. É uma defesa que absolve as empresas de tecnologia de qualquer responsabilidade pela experiência que criam.
Métricas técnicas, custos humanos
O ponto fraco da análise reside no que a pesquisa de satisfação realmente mede. O índice ACSI avalia quesitos como “qualidade do app mobile”, “velocidade de carregamento” e “relevância do conteúdo”. Nesses pontos, as plataformas são de fato eficientes. O Instagram carrega rápido e o algoritmo do TikTok é preciso. O problema é que a crítica à “enshittification” nunca foi sobre performance técnica.
A insatisfação que alimenta o debate público é de outra natureza. Pesquisas de institutos como Pew Research Center, Cato Institute e Reuters mostram um quadro diferente: 75% dos americanos não confiam na moderação de conteúdo das redes, 60% apoiam uma proibição para menores de 16 anos e uma maioria esmagadora acredita que elas têm um impacto negativo na sociedade. A crítica não é sobre o app travar, mas sobre o seu efeito no bem-estar coletivo e na saúde mental.
É perfeitamente possível odiar um serviço e, ainda assim, ser obrigado a usá-lo. Profissionais precisam do LinkedIn para encontrar emprego, e comunidades locais se organizam em grupos de Facebook ou WhatsApp. O uso não implica aprovação. A tentativa da a16z de reescrever essa realidade, focando em métricas de engenharia para ignorar os custos humanos, soa mais como uma peça de relações públicas para seu portfólio do que uma análise séria do momento cultural.
Com reportagem de Brazil Valley
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