Numa reviravolta que evidencia a crescente tensão entre a expansão da inteligência artificial e a realidade da infraestrutura física, o governador do Texas, Greg Abbott, determinou a suspensão de novas aprovações de conexão à rede elétrica para data centers. A medida representa uma mudança drástica para um político que, há menos de um ano, buscava posicionar seu estado como o “epicentro” do setor.
Segundo reportagem da revista Fortune, Abbott agora afirma que as próprias empresas “cavaram sua própria cova” ao acelerar projetos sem o devido engajamento com as comunidades, gerando uma “reação que merecem”. A decisão não apenas congela um pipeline gigantesco de investimentos, mas também abre uma fissura pública com Donald Trump, que classificou a moratória como um “erro” econômico. O episódio texano é um microcosmo do debate que se espalha pelos Estados Unidos: o apetite energético da IA está colidindo com os limites da rede elétrica e da paciência popular.
A conta da energia chegou
A ambição do Texas era desproporcional. Uma análise da Apollo Global Management, citada pela Fortune, aponta que o estado concentra cerca de 100 gigawatts (GW) de capacidade planejada para data centers — mais que os dois estados seguintes, Virgínia e Utah, somados. No entanto, essa liderança é prospectiva. Em capacidade operacional, a Virgínia ainda lidera com 17 GW. O Texas estava a caminho de se tornar o maior mercado do país, mas a aposta agora está em xeque.
A auditoria determinada por Abbott abrange cerca de 1.800 projetos que solicitaram conexão à rede, totalizando impressionantes 474 GW de demanda potencial. O número, que representa mais de cinco vezes o pico histórico de consumo de eletricidade do estado, expõe a natureza especulativa da corrida. A justificativa do governador é dupla: a pressão sobre a infraestrutura e a crescente oposição local, validada por pesquisas que mostram forte resistência da população à construção de data centers em suas vizinhanças.
Uma briga em família republicana
A pausa imposta por Abbott gerou um atrito incomum com a principal figura do Partido Republicano. Ao chamar a decisão de “erro”, Donald Trump expõe uma tensão clássica na direita americana: o ímpeto pró-negócios versus as preocupações populistas e locais. Abbott, ao atender à pressão de sua base eleitoral, sinaliza que os custos políticos de apoiar incondicionalmente a indústria de data centers podem estar superando os benefícios econômicos prometidos.
Este não é um fenômeno isolado do Texas. Em estados-pêndulo como Ohio, Pensilvânia e Wisconsin, o apoio a data centers tornou-se uma arma de ataque para candidatos de ambos os partidos. Políticos que antes estendiam o tapete vermelho para gigantes de tecnologia agora correm para impor moratórias ou exigir aprovação comunitária. O movimento é bipartidário e reflete um cálculo político simples: com a oposição local crescendo, defender projetos que consomem enormes volumes de energia e água tornou-se um risco eleitoral.
O freio de arrumação no Texas sugere que a era do crescimento desenfreado para a infraestrutura de IA pode estar chegando ao fim. A indústria, acostumada a incentivos fiscais e processos de licenciamento acelerados, agora se depara com a dura realidade das limitações físicas e da resistência social. A questão que se impõe não é mais se a revolução da IA acontecerá, mas como e a que custo para as comunidades que a hospedam.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune



