Imagine o cenário. Lá fora, um calor de 30 graus. Dentro do escritório, o ar-condicionado cria uma Sibéria particular, onde mulheres usam suéteres e homens sonham com a liberdade de seus joelhos. Essa é a arena onde se trava uma das mais recentes e curiosamente acaloradas batalhas culturais do mundo corporativo: o uso da bermuda.
A faísca veio de cima. Adam Mosseri, o chefe do Instagram, declarou-se "pró-bermuda", admitindo que o debate é intenso em sua própria equipe. A provocação levou o Business Insider a questionar seus leitores no LinkedIn, e o resultado revela um ecossistema dividido. Segundo a reportagem, a maioria (54%) ainda veta a peça, contra apenas 20% que a liberam sem restrições. Um quarto dos entrevistados, porém, se refugia na resposta mais diplomática e, talvez, mais honesta: "depende".
Onde mora a complexidade
É nesse "depende" que se encontra a real complexidade do tema. Não se trata de qualquer bermuda – há um abismo entre o modelo de sarja e o de basquete. A indústria também importa; o que é aceitável numa startup de tecnologia pode ser um anátema num escritório de advocacia. E há a questão de gênero, como apontou uma leitora na pesquisa: "Se saias são aceitáveis, bermudas também deveriam ser", sujeitas às mesmas regras.
Outros sugerem um gatilho térmico – acima de certa temperatura, tudo seria permitido. Mas a crítica mais afiada mira na subjetividade de Mosseri ao dizer que "nem todo mundo consegue usar bem". Como um gestor de RH mede o "bom caimento" sem criar um pesadelo de conformidade e potenciais vieses? A fala do executivo, para um dos participantes da enquete, é um "pesadelo de RH".
A nova etiqueta
A pandemia, com suas reuniões de Zoom onde o profissionalismo existia apenas da cintura para cima, dissolveu ainda mais essas fronteiras. O código de vestimenta, antes um monólito herdado da era "Mad Men", hoje é um mosaico de exceções e bom senso. O trabalho remoto normalizou o conforto, tornando o retorno ao formalismo pré-crise sanitária algo anacrônico para muitos.
A discussão sobre a bermuda é menos sobre tecido e mais sobre o que valorizamos: a formalidade como sinônimo de respeito ou o conforto como catalisador da produtividade? A resposta, ao que parece, ainda está sendo costurada, um escritório de cada vez.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Business Insider





