A Natura comunicou ao mercado nesta quinta-feira que o fundo Lotus, gerido por veículos da Advent International, atingiu a marca de 90,6 milhões de ações da fabricante de cosméticos. O volume equivale a 6,6% do capital social da empresa, consolidando um passo estratégico relevante para a gestora norte-americana de private equity no cenário corporativo brasileiro.

Além da participação direta em ações, a Advent também mantém exposição equivalente a 19,2 milhões de papéis por meio de derivativos de liquidação financeira, o que representa 1,4% adicional do capital. A movimentação é desdobramento de um acordo firmado em março, que prevê a aquisição de até 10% da companhia pela gestora, sinalizando uma aposta de longo prazo na tese de virada da Natura.

O peso da governança no novo ciclo

A presença da Advent no quadro de acionistas é vista pelo mercado como um catalisador de mudanças estruturais. Historicamente, a entrada de gestoras de private equity em empresas de capital aberto funciona como um mecanismo de pressão por eficiência. A expectativa é que a gestora utilize sua expertise para aprimorar a disciplina financeira e a execução estratégica, pontos que foram alvos de críticas durante o ciclo de expansão internacional da companhia.

Analistas do Bradesco BBI destacaram, à época do anúncio do acordo, que o compromisso de investimento deve ajudar a remodelar o senso de propriedade dentro da organização. A tese é que, com uma supervisão mais próxima, a Natura consiga traduzir suas metas em resultados operacionais mais consistentes, afastando a volatilidade que marcou seus últimos balanços financeiros.

Mecanismos de incentivo e alinhamento

O uso de derivativos para compor a exposição total da Advent revela uma estratégia de acumulação gradual, comum em operações de grande porte que buscam mitigar o impacto no preço das ações. Ao manter uma fatia significativa via instrumentos financeiros, a gestora protege sua posição enquanto aguarda o momento ideal para a conversão ou manutenção conforme a evolução da tese de investimento.

Este movimento altera a dinâmica de poder e influência na governança da Natura. A entrada de um investidor institucional com histórico de reestruturação operacional sugere que a gestão da companhia passará por um escrutínio mais rigoroso. O foco deixa de ser apenas o crescimento em receita e passa a ser a rentabilidade e a eficiência do capital investido.

Implicações para o ecossistema

A movimentação da Advent reflete um interesse renovado de investidores globais em ativos brasileiros que possuem marcas fortes, mas que enfrentaram desafios de desalavancagem e integração operacional. Para os demais acionistas, a presença de um player como a Advent serve como um selo de confiança na viabilidade da reestruturação da Natura.

Concorrentes e reguladores observarão de perto como essa participação se traduzirá em mudanças no conselho ou em decisões estratégicas de alocação de capital. A capacidade da empresa em entregar os resultados prometidos será o teste definitivo para o sucesso dessa parceria, servindo de exemplo para outras companhias que buscam suporte de fundos de private equity para retomar o crescimento.

Perspectivas e incertezas

O que permanece em aberto é o nível de influência que a Advent exercerá diretamente na operação cotidiana. Embora o mercado receba bem a notícia, a execução do plano de eficiência ainda depende da capacidade da liderança interna em absorver as diretrizes trazidas pelos novos sócios e manter a cultura da empresa.

Os investidores devem observar os próximos relatórios trimestrais em busca de sinais claros de melhora nas margens e redução de custos. A transição para uma estrutura de capital mais otimizada será o indicador fundamental para avaliar se a entrada da Advent conseguirá, de fato, remodelar o futuro da Natura no longo prazo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times