A política fiscal brasileira tornou-se o principal entrave para o avanço consistente da economia, superando a política monetária como o fator central de preocupação entre economistas e gestores de mercado. Segundo Bruno Serra, gestor da família de fundos Janeiro da Itaú Asset, a ausência de uma mudança na condução das contas públicas impede qualquer perspectiva de melhora estrutural. A avaliação foi corroborada por Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG Pactual, durante o evento Onde Investir no 2º Semestre de 2026, promovido pelo Seu Dinheiro.

Para os especialistas, o crescimento da atividade econômica registrado no primeiro semestre, mesmo sob juros elevados, é sustentado por um impulso fiscal positivo. Esse cenário, contudo, gera desconfiança sobre a sustentabilidade da dívida pública a longo prazo. A análise sugere que a expansão dos gastos e do crédito tem atuado como um motor artificial que, embora sustente o consumo no curto prazo, cria desafios severos para a estabilização macroeconômica.

O desafio das despesas federais

O diagnóstico de Mansueto Almeida aponta para uma trajetória de gastos que se mostra insustentável. Entre 2023 e 2026, as despesas federais devem acumular um crescimento real de aproximadamente 21%. Esse ritmo de expansão é incompatível com a necessidade de controle da dívida bruta, que, segundo projeções do BTG Pactual, deve atingir cerca de 85% do PIB ao final de 2027. A leitura aqui é que o próximo governo enfrentará a urgência matemática de conter esse avanço.

Ao revisitar o período em que atuou como secretário do Tesouro Nacional, Almeida destacou que a credibilidade fiscal é construída por meio de reformas estruturais. A aprovação do teto de gastos e da reforma da Previdência, em gestões anteriores, serviu como sinalização fundamental para reduzir os juros de longo prazo. O mecanismo de confiança funciona antecipadamente à materialização dos efeitos contábeis, permitindo que o mercado precifique uma trajetória de solvência antes mesmo de o déficit ser revertido integralmente.

Mecanismos de ajuste e expectativas

O debate entre os economistas reforça que o mercado opera baseado em expectativas de trajetória. Quando o Estado sinaliza um compromisso com a disciplina fiscal, ocorre uma reavaliação imediata dos riscos, o que alivia a pressão sobre a curva de juros. No cenário atual, a falta de uma sinalização clara sobre a contenção de gastos mantém os prêmios de risco elevados, limitando a eficácia da política monetária em controlar a inflação sem sacrificar o crescimento.

O comportamento do mercado financeiro, conforme observado pelos especialistas, indica que a volatilidade eleitoral é secundária frente à preocupação com a agenda fiscal. A incerteza sobre quem ocupará o Palácio do Planalto em 2027 é considerada menor do que a incerteza sobre qual será a política econômica adotada. A leitura é que, independentemente do vencedor, a pressão por um ajuste nas contas públicas será o determinante principal para a confiança dos investidores e a estabilidade da moeda.

Implicações para o mercado e agentes

Para os investidores, a mensagem central é de cautela com o cenário pós-eleitoral. A transição de governo será o momento em que as promessas de campanha serão testadas contra a realidade fiscal do país. Reguladores e gestores observam que a continuidade de um modelo expansionista sem contrapartidas de receita ou corte de despesas forçará o Banco Central a manter taxas de juros em patamares restritivos por um período mais longo do que o desejado.

Para o ecossistema brasileiro, a questão central reside na capacidade política de implementar reformas que imponham limites reais ao crescimento da despesa pública. A ausência de um consenso político sobre essa necessidade pode prolongar a percepção de risco país, afetando o custo de capital para empresas e a atratividade de investimentos de longo prazo em infraestrutura e inovação.

Perspectivas e incertezas

O horizonte para 2027 permanece condicionado aos sinais que emanarão das primeiras medidas do governo eleito. A grande questão em aberto é se haverá capital político suficiente para reverter a tendência de alta dos gastos sem gerar instabilidade social ou política. O mercado, por ora, mantém uma postura de espera, monitorando qualquer indício de mudança na direção da política fiscal.

O que se observa é que a economia brasileira está em uma encruzilhada onde a política fiscal deixou de ser um detalhe para se tornar a variável fundamental. A capacidade de o próximo governo entregar uma agenda de austeridade ou controle fiscal será o divisor de águas para o desempenho dos ativos financeiros e para a retomada do crescimento sustentável nos próximos anos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times