O ex-presidente Michel Temer afirmou nesta sexta-feira (26) que a baixa popularidade de seu governo, entre 2016 e 2018, funcionou como um trunfo estratégico para a implementação de medidas impopulares, mas necessárias. A declaração foi feita durante coletiva de imprensa após a exibição do documentário “964 dias”, que revisita sua trajetória política e deve estrear em setembro.

Para o ex-presidente, a ausência de preocupação com o capital político imediato permitiu que sua gestão avançasse em pautas como a reforma trabalhista e o teto de gastos. Segundo reportagem do InfoMoney, Temer sustenta que, caso estivesse focado na aprovação popular, o governo teria evitado decisões que, embora custosas politicamente, foram fundamentais para a estabilização econômica do país naquele momento.

A lógica do capital político negativo

A tese de que a impopularidade pode ser um ativo para reformas estruturais não é nova, mas ganha contornos específicos no caso de Temer. Em um sistema político marcado pela fragmentação e pela necessidade de coalizões, o ex-presidente operou em um ambiente de alta volatilidade, agravado por denúncias formais da Procuradoria-Geral da República. A leitura é que, ao não buscar a reeleição ou a manutenção de índices de popularidade, o gestor ganha uma margem de manobra rara.

Historicamente, governos que priorizam o curto prazo tendem a evitar reformas que impactam direitos ou reduzem o gasto público, temendo a erosão da base parlamentar. O governo Temer, ao assumir o ônus de uma transição após o impeachment de Dilma Rousseff, encontrou na impopularidade um escudo. A análise aqui é que o distanciamento do eleitorado permitiu um pragmatismo que, em condições normais, seria bloqueado pela pressão das ruas ou pela estratégia eleitoral dos partidos aliados.

O custo do populismo vs. responsabilidade fiscal

Temer reiterou que o maior problema do Brasil reside em medidas populistas que elevam a dívida pública. Para ele, o ciclo vicioso de tentar agradar o eleitorado com ações de curto prazo resulta em um encarecimento do custo do país. O mecanismo descrito pelo ex-presidente sugere que o eleitorado muitas vezes percebe as medidas como negativas durante a implementação, mas as valida retrospectivamente após a estabilização dos resultados.

O documentário “964 dias”, dirigido por Bruno Barreto, é visto pelo ex-presidente não como uma tentativa de reescrever a história, mas como uma forma de recuperar fatos. A obra se propõe a narrar a trajetória desde o início até o fim, sem omitir os momentos de rejeição popular, como as manifestações pelo “Fora Temer”. É uma tentativa de colocar em perspectiva o legado de uma gestão que, apesar da impopularidade, reverteu indicadores econômicos importantes, como a redução dos juros e a recuperação de estatais.

Implicações para o ecossistema político

A postura de Temer levanta questões sobre a viabilidade de governos de transição em ambientes polarizados. Enquanto o ex-presidente defende a pluralidade de ideias, ele aponta que o Brasil vive hoje uma “radicalização” que impede a discussão de projetos. Para os stakeholders atuais, o paralelo é claro: a dificuldade de implementar reformas em um cenário onde a popularidade é a única métrica de sucesso, ignorando o impacto de longo prazo na dívida pública.

Para o mercado e para os formuladores de políticas, a fala de Temer reforça a tese de que reformas estruturais exigem um custo político que poucos estão dispostos a pagar. O desafio, contudo, permanece: como convencer o eleitorado de que medidas amargas hoje são a única saída para a angústia econômica de amanhã, sem que o governo se torne refém de sua própria rejeição?

O futuro fora da arena eleitoral

Ao descartar qualquer pretensão de disputar novos cargos públicos, Temer sinaliza que seu papel atual é o de observador e consultor da experiência política. O ex-presidente coloca-se à disposição para colaborar com a discussão de projetos, desde que o debate público consiga superar o foco exclusivo em pessoas e nomes.

O que permanece em aberto é se a narrativa de “impopularidade útil” será absorvida pelo debate político contemporâneo ou se continuará sendo vista apenas como um caso isolado. O observar dos próximos meses dirá se a classe política brasileira está disposta a sacrificar a popularidade em prol de reformas estruturais ou se o populismo continuará sendo o caminho de menor resistência para os ocupantes do Planalto.

Com reportagem do InfoMoney

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