A luz da sala de cinema se apaga em São Paulo e, na tela, a voz de Luciana Temer ecoa uma verdade desconfortável: "As pessoas te odeiam". É um início cortante para o documentário "963 Dias", do cineasta Bruno Barreto, que busca dissecar o período em que Michel Temer ocupou o Palácio do Planalto. O ex-presidente, sentado na plateia entre convidados e aliados, observa a própria trajetória ser transposta para o registro histórico. Ali, entre o silêncio da audiência e o peso das imagens de arquivo, Temer não tenta negar a impopularidade que marcou seus anos de gestão. Em vez disso, ele a abraça como um custo necessário para a implementação de reformas que, segundo sua visão, foram vitais para a estabilidade econômica nacional.

O peso do pragmatismo político

A narrativa construída por Barreto não se limita a um relato cronológico, mas mergulha na complexidade das articulações que definiram o governo pós-impeachment de Dilma Rousseff. Temer insiste que a impopularidade foi o preço pago por medidas como o teto de gastos públicos, a Reforma Trabalhista e a Reforma da Previdência. Para o ex-presidente, o governante que se pauta pela aprovação popular imediata estaria fadado a ignorar as necessidades estruturais do Estado. O documentário explora esse dilema entre o capital político e a agenda de reformas, expondo como o governo operou em um ambiente de constante desconfiança e pressão institucional.

A arquitetura das crises e o efeito Joesley

O filme dedica espaço central aos momentos de ruptura, especialmente o fatídico "Joesley Day", que colocou a sobrevivência do governo à beira do colapso. Ao revisitar os bastidores das negociações com o Congresso e os episódios de tensão, a obra tenta humanizar a figura de Temer e desmistificar a pecha de golpista, recorrendo a interpretações jurídicas de figuras como Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes. A análise aqui sugere que o documentário atua como um exercício de autodefesa, onde o protagonista busca recontextualizar eventos caóticos como soluções políticas dentro da normalidade democrática, ainda que sob condições extremas.

O legado das ruas e o ambiente digital

Um dos pontos mais instigantes da obra é a conexão estabelecida entre a greve dos caminhoneiros de 2018 e o surgimento de um novo ecossistema político, movido pela desinformação em redes sociais. Moraes, presente no documentário, identifica aquele momento como o embrião da manipulação digital que viria a moldar as eleições subsequentes. Essa leitura coloca o governo Temer como um ponto de inflexão, onde as velhas práticas da política de gabinete colidiram com a nova e imprevisível dinâmica das ruas, mediada por grupos de WhatsApp e pela fragmentação da opinião pública.

Entre a história e a nostalgia do poder

O que permanece após o fim da sessão é a questão sobre quem detém, afinal, o direito de definir o passado. Enquanto Temer se dispõe a oferecer novos documentos e propostas para o país, o documentário de Barreto serve como um espelho de uma era marcada pela polarização. O ex-presidente, agora desprovido de pretensões eleitorais, busca apenas o reconhecimento de que suas escolhas, por mais impopulares que tenham sido, foram feitas com o objetivo de evitar um colapso maior. Resta saber se o tempo e o olhar dos historiadores validarão esse esforço de reabilitação narrativa ou se o estigma da impopularidade continuará sendo o selo definitivo de seus 963 dias de gestão.

O Brasil continua a debater o legado daquele triênio, mas o filme deixa claro que a tentativa de controle sobre o próprio mito é uma das últimas batalhas de qualquer estadista. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times