Isabel Parker, diretora de inovação do escritório global White & Case, revelou que a empresa está tendo que "segurar" o lançamento de um novo assistente legal da startup Legora devido à hesitação dos advogados em utilizar esses sistemas. O caso ilustra um padrão mais amplo: grandes escritórios de advocacia, que empregam milhares de profissionais, encontram resistência interna crescente à adoção de ferramentas de IA conhecidas como agentes.
Parker explicou que a estratégia de implementação gradual visa garantir que os advogados se sintam confortáveis e confiantes com a nova tecnologia. O agente em questão promete lidar com tarefas jurídicas mais complexas do que as ferramentas de IA já em uso no escritório, que se limitam à análise e sumarização de documentos e à geração de ideias. Diferentemente de chatbots mais simples, os agentes de IA podem executar múltiplas ações em nome do usuário, automatizando fluxos de trabalho mais sofisticados.
A Natureza do Ceticismo Jurídico
Os advogados, por sua natureza profissional, tendem a ser céticos, escassos em tempo e avessos ao risco. Essa postura, aliada a uma forte convicção na expertise "artesanal" de sua profissão, cria um terreno fértil para a resistência à tecnologia. A chegada de ferramentas de IA é vista por muitos como uma ameaça direta a anos de dedicação e ao modelo de trabalho estabelecido.
A Legora, uma startup de legaltech em rápido crescimento, busca automatizar tarefas como revisão de contratos e elaboração de documentos — processos que exigem precisão impecável. Apesar da resistência, o White & Case investe "quantias significativas" em ferramentas de IA, com uma parcela expressiva de sua equipe utilizando produtos da Legora em algum grau, o que pode gerar economias de até 80% no tempo de execução de tarefas manuais.
Fadiga Tecnológica e o Desafio da Adoção
Jillian Burnett, vice-presidente de engajamento da Legora, destacou que o ritmo acelerado do desenvolvimento da IA exige que os advogados estejam em constante aprendizado de novas ferramentas, o que pode levar à exaustão. A resistência de uma base de clientes já ocupada e cética a novas capacitações representa um desafio significativo. Advogados relutam em dedicar seu tempo faturável para aprender algo novo, e a Legora admitiu não ter antecipado adequadamente essa "fadiga" como um obstáculo à adoção.
Para mitigar isso, a empresa tem enviado sua própria equipe para trabalhar junto aos advogados, demonstrando a relevância "hiper-específica" de seus produtos. A estratégia parece surtir efeito: a Legora anunciou recentemente mais de US$ 200 milhões em receita recorrente anualizada, o que sugere um faturamento mensal superior a US$ 16 milhões.
A Pressão dos Clientes por Eficiência
Paradoxalmente, o que impulsiona a mudança no setor jurídico são as demandas dos próprios clientes. Parker relatou que os clientes frequentemente questionam os escritórios sobre o uso de novas tecnologias para otimizar o trabalho e repassar essas eficiências. Com escritórios e equipes jurídicas internas de clientes utilizando frequentemente os mesmos aplicativos de IA, "não há para onde fugir". A exigência do cliente por resultados mais rápidos e eficientes supera qualquer fadiga de mudança entre os advogados.
Equilíbrio entre Eficiência e Habilidade Essencial
Em alguns casos, escritórios podem optar por limitar o uso de IA por advogados juniores para garantir que desenvolvam habilidades básicas manualmente. O White & Case considera "sacrificar alguma eficiência" da IA para que seus advogados mais jovens aprendam a realizar tarefas de forma manual antes de adotarem agentes mais avançados, como o Agent Pro da Legora.
Parker recorre a uma analogia do setor de aviação: embora a maioria dos aviões voe em piloto automático, é crucial que o piloto na cabine saiba comandar a aeronave em todas as circunstâncias. A confiança e a competência humana permanecem insubstituíveis, mesmo em uma era de automação crescente.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · The Information





